quinta-feira, 16 de junho de 2011

A fonte permanece



«O SENHOR, teu Deus, vai introduzir-te numa terra óptima, terra de torrentes de água, de fontes e de nascentes profundas, que jorram por vales e montes; terra de trigo, cevada, uvas, figos, romãs; terra de azeite e mel; terra onde comerás pão com segurança, onde nada te faltará, onde as pedras são de ferro e de cujas montanhas extrairás cobre. Então comerás e ficarás saciado, agradecendo ao SENHOR, teu Deus, pela terra óptima que te deu.
(Livro do Deuteronómio 8, 7-10)

O pequeno texto bíblico que coloco hoje, é uma espécie de desejo de acordar um pouco e de renovar a certeza de que não desisto porque em mim a FONTE não secou, a TERRA não deixou de produzir, as montanhas permanecem e posso olhá-las da janela do meu quarto.

Reconheço que os momentos que vivemos podem ser uma travessia, árida como um deserto. Contudo alguém me diz que o Senhor não me faltará com o pão do deserto, uma porção para cada dia.
É Ele, o Senhor, que acompanha os meus movimentos, Ele na serenidade me dá a alegria mas na dor será porventura o meu conforto... Um dia. Depois um outro e a seguir outro ainda...
Alice

domingo, 12 de junho de 2011

Escolho a vida...

Nesta manhã
endireito meu corpo
abro meu rosto,
respiro a aurora
e escolho a vida.

Nesta manhã
acolho meus golpes,
silencio meus limites,
dissolvo meus medos
e escolho a vida.

Nesta manhã
olho nos olhos,
abraço outro ombro
dou minha palavra
e escolho a vida

Nesta manhã
repouso na paz,
alimento o futuro,
partilho alegria,
e escolho a vida.

Nesta manhã
te busco na morte,
te ergo do lodo,
te levo tão frágil
e escolho a vida

Nesta manhã
te escuto em silencio
te deixo preencher-me
e escolho a vida

Benjamin González Buelta SJ


Foto de Roma - Praça de S. Pedro

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Poema

Porque a morte tem o seu tempo
A ruína soma ruína, à cabeça
Equilibra a existência desmoronada e inteira.
Tu és o que edifica
Tu constróis mil vezes.
Porque o raio tem o seu tempo.
És o clarão, a lâmpada, a estrela
Somas luz à luz.
Não és a luz, és mais que a luz
Porque a noite tem o seu tempo.

Daniel Faria

Roma e Assis - algumas fotos























domingo, 8 de maio de 2011

Onde estás?

Onde estou, me perguntas?
A teu lado estou, amigo, na noite da espera,
na alba da vida, no vento da serra,
na tarde despovoada, no sono que não sonha,
na fome desgarrada e no pão para a mesa,
na felicidade partilhada e na isolada e amarga pena (...)
No silêncio selado e no grito de protesto.
Na cruz de cada dia e na morte que se aproxima.
Na luz da outra margem e no meu amor como resposta. (...)
Onde estou, me perguntas?
A teu lado estou, amigo; vivo e caminho na terra,
peregrino até Emaús para me sentar à tua mesa;
ao partir de novo o pão descobrirás a minha presença.
Estou aqui, convosco, com a alma em flor desperta,
nesta Páscoa de amor galopando pelas veias
do vosso sangue empapada de um Deus que vive e sonha.
Onde estou, me perguntas?.
A teu lado estou, amigo; despe-te para a surpresa,
abre os olhos e olha para dentro e para fora,
que no lagar da dor tenho os meus gozos e penas,
e na nora do amor, eu, teu Deus, chamo à porta.
Onde estou, me perguntas?
NA TUA VIDA, é a resposta.

Antonio Bellido

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Como reporás a terra arrastada

Esta luz que me alumia e fortalece mesmo quando se esconde entre as nuvens e as árvores, esta luz que me adormece e acorda em cada dia, não precisa de muitas palavras e por isso simplesmente vo-la deixo neste poema.

Como reporás a terra arrastada
Para a boca?
Foges e foges
E repousas à sombra da velocidade.
E ao extinguires-te dizes
Tudo
O que podia ser dito
Sobre a luz.

Daniel Faria (Poesia)
Foto - Zilda

domingo, 1 de maio de 2011

Páscoa

Dá-nos, Senhor, aquela Paz estranha
que brota em plena luta
como uma flor de fogo;
que irrompe em plena noite
como uma canção escondida;
que chega em plena morte
como um beijo esperado.
Dá-nos a Paz dos que andam sempre,
despidos de vantagens;
vestidos pelo vento
de uma esperança núbil.
Aquela Paz do pobre
que já venceu o medo.
Aquela Paz do livre
que se apega à vida.
A paz que compartilha em igualdade
como a água e a Hóstia.
Dá-nos a tua Paz, a tua.


Pedro Casaldáliga.

Pintura:Gustavo Montebello

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Flor de Aleluia!


Gosto desta flor de Aleluia, e já a fui oferecendo por email a alguns amigos.
Olho-a e sinto-a cheia de uma beleza singela e pura, parecendo-me que nunca irá esmorecer... É assim que vejo a Páscoa: Renova a nossa vida com Deus, renova as nossas relações, e hoje especialmente renova em mim uma certeza muito bonita: É que se pode ficar partindo e pode-se partir ficando para sempre!

Alice

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Porque a Páscoa é independen​te do lado do equador em que se está!

Porque é lindo e cheio de Aleluias, deixo um testemunho Pascal de um amigo que está em Moçambique.

Não sei porquê, mas os Glórias marcam as minhas ressurreições nestas terras moçambicanas. No meio de tanta morte evidente, por entre escárnios, gozações, ofensas de todo o tipo, abusos, acusações falsas e agressões, de repente, sem a preocupação de pré-avisos, surgem Glórias que são sinais incontestáveis da ressurreição de nosso Senhor Jesus. E levam-nos atrás dela. Não conseguimos deixar de ressuscitar com Ele.

Ontem, na Vigília Pascal, cerimónia cuidada e muito bonita, não foi excepção. Quase como se não soubesse o que se iria passar, entraram no coro duas ou três vozes pouco convincentes, cada uma no seu tom, e até cada uma a seu tempo. Aquele sinal de desunião tinha, no entanto, algo demasiado grande para ser ignorado: era a entoação do Glória.

E está no sangue, na carne, no espírito, nas entranhas de qualquer ser, reconhecê-lo porque é verdadeiro. É a exteriorização da prova maior de amor de Deus por nós: a encarnação, a morte e a ressurreição de Jesus, condensada num instante de reconhecimento comum.

Depressa toda a gente agarrou esta verdade e aderiu a ela com tudo o que tinha: as vozes estridentes, os corpos dançarinos, os sorrisos nas faces, os arrepios nos braços... as lágrimas nos olhos.

Porque, afinal, esta foi A noite.
Aquela em que o Senhor ressuscitou e com Ele nos ressuscitou a nós e a tudo o que vivemos.
Esta foi a noite de um tempo que se torna presentemente eterno.
E assim esta é a noite da vida que acaba sempre por vencer.

Saudades,
e votos de uma Páscoa de verdadeira ressurreição com o Senhor.
Francisco Campos, sj

domingo, 24 de abril de 2011

Ele vive!

Está vivo… Que seja essa a nossa alegria!
E a bênção maior que podemos ter é a certeza de que o Senhor Ressuscitado permanecerá connosco para sempre e poderemos dizer: "Meu Senhor e Meu Deus" .

Pintura de Sieger Koder

sexta-feira, 22 de abril de 2011

O outro e a Cruz

Jesus percisa de ganhar força para levar a Sua Cruz. Simão de Cirene é requisitado para o ajudar e vai, quase sem compreender, mas vai...

É também necessário e urgente que sejamos solidários, com todos aqueles que carregam pesadas cruzes... Permanecer em silêncio, face a face, ombro a ombro, coração a coração!

Pintura de Sieger Koder

quinta-feira, 21 de abril de 2011

O Lava-pés e nós

“Não há maior amor que dar a vida por aquele que se ama”
(Jo 15, 13).

Jesus lava os pés aos Discípulos, num gesto de Amor Humano e Divino que se repete nos nossos pequenos sinais de amor.
Jesus ajoelha-se aos meus pés e olha-me a partir de baixo para me encher de força e me afirmar mais uma vez, tudo o que é exterior se estilhaça e cai. Só fica o verdadeiro AMOR!

Hoje procurarei fazer silêncio para poder compreender melhor com o coração, este amor tão intenso, esta paixão que me dá a vida para sempre.

Aqui em casa o "nosso Cristo" precisa de todo o cuidado e muito carinho e paciência! O olhando a minha mãe na sua dependência total, posso dizer: "Meu Senhor e Meu Deus".

Pinturas de Sieger Koder

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Quem se reconhecerá?

"Quem reconhecerá no servo desprezado o mais belo dos homens? Quem ficará aqui, assim, em tamanha confusão, em tão grande silêncio? Ficarão os pobres e os apaixonados que se deixarem enriquecer por tão grande amor. E ficará o discípulo que aceitar nascer de novo. Reconhecido, ficará pronto a ir até aonde for o seu Mestre."

Desejo a todos uma Semana Santa pacífica e pacificadora, com tempo para amar e ser amado... Que ao olharmos para a Cruz de Jesus possamos crer que ela nos fala de um amor apaixonado que dá a vida por cada um de nós.

Regressei do Hospital quase recuperada, voltarei em  Maio para controle. Os dias que se seguiram aqui em casa, foram de intenso trabalho e foi com o coração presente mas fisicamente distante, que ajudei a preparar uma celebração que pudesse ajudar os nossos meninos a lançar-se, cada qual a seu modo, neste mistério do Amor de Jesus, que nos conduzirá à Páscoa.

Nesta sala onde me encontro vivemos todos um "tempo de prova " com a doença da minha mãe que dia a dia se consome, para se apagar a seu tempo.

E isto é permanecer... Isto é paixão!


pintura de Sieger Koder

domingo, 17 de abril de 2011

Ausência

Fala

Ouvir-te-ei
Ainda que os segredos
As amoras me chamem

Diz-me

Que existirão lágrimas para chorar
Na velhice
Na solidão

Ainda que acordes os olhos dos deuses

Fala

Ouvir-te-ei
A coragem
Alguém de nós que já não está


Daniel Faria, in "Oxálida"

domingo, 10 de abril de 2011

Lázaro vem...

“Lázaro, sai para fora”. São as palavras gritantes de Jesus, diante do túmulo do seu amigo Lázaro. Jesus chama-o à vida: “sai para fora”. O sepulcro ainda não!... Vem de novo à luz do dia.

É este mesmo o Jesus não se ausenta da minha vida e me dá o ânimo e a esperança de que preciso em cada dia.

Deixo uma flor e uma oração. É de alguém que amo sem nunca ter conhecido senão pelos livros, mas que me ajuda a entrar em diálogo com Deus.



A doença e a morte não têm a última palavra.São superadas pelo autor da Vida, que é capaz de despertar e curar. A vida que Jesus comunica vence a morte. A morte é um sonho. O nosso destino é a Vida. “ A morte para um cristão é o último amén da sua vida e o primeiro aleluia da sua vida nova“

(Pedro Arrupe)

sábado, 9 de abril de 2011

Escuto a vida


Embora o meu olhar não possa abranger, é um pouco este, o ambiente da paisagem que se desenha fora do edifício deste hospital do Fundão onde me encontro, hoje pelo terceiro dia. Uma gastroenterite, ou algo semelhante, que surpreendeu a minha quarta feira com alguns projectos e me fez ir parar ao hospital da Covilhã, desidratada e com baixas defesas. A transferência para esta nova unidade que pertence ao Centro Hospitalar da Cova da Beira, é especialmente para ficar mais resguardada de outras infecções. Para estes casos existem aqui algumas alternativas como a de permanecer num quarto sozinha. E aqui estou eu... hoje, bastante melhor e com possibilidades de ter o computador comigo para comunicar. Sei que há sofrimento à minha volta, mas não vejo… só sinto, só oiço os murmúrios... Tal como sei que há amor que não se vê, só pode escutar-se e sentir-se em pequenos gestos ou sinais, mas é um amor que se fortalece na vida que oferece!

domingo, 3 de abril de 2011

«Eu creio, Senhor» (Jo 9, 38)

Jesus encontra um cego de nascença e quer fazer dele uma nova criatura... "Vai lavar-te à piscina de Siloé" ... e cura-o.

Jesus a Luz do mundo, quer ser a Luz na vida para mim e para cada um de nós. Aquele que é verdadeiramente cego tudo o aproxima mais da Luz porque quer ver de verdade.
E de facto maior que a cegueira fisica é a cegueira da alma... Aquela que fecha o coração ao amor! Mas eu CREIO que há em cada um de nós um desejo de verdade e de olhar a vida com olhar de fé! E o desejo mais íntimo de Deus é que, para cada homem e para cada mulher a vida brilhe e brilhe muito.

Alice

sábado, 2 de abril de 2011

A Quaresma

Quaresma é o tempo que vem e vai,
Tempo para ser vivido em caminho,
sem se instalar, sem o reter, sem lamento,
com a esperança sempre à flor de pele
e o olhar fixo noutro tempo,
a Páscoa, que é definitiva.
Florentino Ulibarri

quarta-feira, 30 de março de 2011

Vastidão

Gosto de voltar de vez em quando à leitura de Etty, a sua vida toca a minha vida. No seu Diário e nas suas cartas encontro sinais de um amor que bebe de um outro amor maior. Partilho com ela as alegrias, sorrisos as conquistas mas também os sofrimentos, lágrimas, e ainda o desejo de Deus. Partilho o desejo de aprender a ajoelhar diante do meu Senhor... e grata, muito grata.
E por isso aqui deixo algo que profundamente diz de mim ao dizer dela...

"O que importa é escutar o próprio ritmo dentro de ti e tentar viver segundo esse ritmo. Escutar o que emana de ti. Muito daquilo que fazes é simplesmente uma imitação ou dever imaginário ou falsas ideias acerca do que uma pessoa deve ser. A única certeza de como viver e o que fazer só pode provir das fontes que brotam lá no fundo de ti. E agora eu digo, muito humilde e grata, e é a sério, embora eu saiba que mais uma vez hei-de rebelar-me e tornar-me irritável: 'Meu Deus, agradeço-Te por me teres criado como eu sou. Agradeço-Te por vezes estar cheia de vastidão, essa vastidão não é senão o estar repleta de Ti'.»

Etty Hillesum

(Fotos da minha terra, é a minha amiga Zilda que vai fotografando para mim)