quinta-feira, 19 de julho de 2012

"Se fores pelo centro de ti mesmo"



" Se fores pelo centro de ti mesmo..." Deixar-te-ás encontrar, cada vez mais, pelo Senhor. 
É um eco que permanece em mim e me tem acompanhado nos últimos dias. Depois de três dias de silêncio, oração e reflexão em Soutelo... Exercícios Espirituais em grupo, mas orientados de forma que cada um faça o seu caminho, para melhor se encontrar consigo próprio em Deus e com Deus. 

Em cada momento de encontro recebíamos algo, que para mim, tinha sabor a um presente de amizade e bem. Imagino que vindo da parte de Deus... E embrulhado conforme as suas diferentes cores e modelos. Continham uma frase ou um poema de Daniel Faria, alguém que com a sua poesia me ajuda a percorrer caminhos.
Depois o regresso ao quotidiano, onde tudo permanece igual: o trabalho, as alegrias, as dificuldades, e até algumas dores... Só que já não parto do mesmo sítio! Não sei ainda bem de que ponto estou a re-partir, mas sei que se reflete naquilo que em mim se comunica e se relaciona... Talvez quem sabe? De novos lugares de liberdade.

Esta frase faz parte do título de um dos livros do Daniel.
A imagem é de um PowerPoint

Nota importante: "Os poemas de Daniel Faria são, sobretudo, um espaço de diálogo com o mundo, com outros e com o Outro que é Deus. Não estamos, porém, perante uma poesia “religiosa” ou “espiritual”, mas sim face a uma poesia cuja unidade é a unidade do próprio autor enquanto pessoa que pensa e sente, acredita e constrói, aproxima-se e afasta-se, numa lúcida transparência de quem sabe que está a escrever poesia e que tem consciência sóbria do seu valor."

quarta-feira, 11 de julho de 2012



por National Geographic Society


"Só quem faz bem as pequenas coisas é capaz de fazer também as grandes, disse alguém". 
Acredito nisso e acredito que é nos pequenos gestos que revelamos a nossa alma, a nossa alegria de viver e a nossa capacidade de perdoar e de amar.
Hoje ao ouvir o passo a rezar e ao ver esta imagem simples e bonita, tive a certeza de que continuo a sonhar e a acreditar que vale a pena viver e oferecer a vida sem esperar ou desejar o “retorno”. 
Mas quão difícil e exigente isso é e como eu sei!
No entanto sinto-me um pouco como um elo de ligação e uma força para alguns continuarem, mesmo que eu própria o não sinta assim com tanta clareza.
Muito raramente saio sem um sorriso que ajude a sustentar as razões da minha fé e a certeza de que sou muito amada por Deus.
Amanhã começarei um breve tempo de retiro em silêncio, 3 dias de paragem, de estar, de alimentar cada vez mais e com mais verdade aquilo que vou deixando escrito por aqui. 
Não vou poder levar a cadeira de rodas que me ajudaria a dar uma volta pela quinta, mas não faz mal, tudo o que possa ser... é bom.


sábado, 7 de julho de 2012

Ontem ouvi o barulho do mar



Estava cansada e fui deitar-me mais cedo, senti que precisava rezar um pouco, respirar fundo e atenuar a agitação de uma sexta-feira que fora cansativa. No mp3 tenho algumas coisas gravadas, sobretudo músicas que gosto de ouvir e me ajudam a serenar e a examinar o meu dia. 
E foi assim que escutei o barulho suave do mar como se estivesse próximo de mim, como se o pudesse tocar e cheirar. Deixei-me levar por esta, “quase” realidade, de um momento que se tornou cheio de recordações e afetos, cheio de amor e de presença...
Adormeci feliz!


quarta-feira, 4 de julho de 2012

Chamo-Te



Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.

Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só de Teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que não quero ver.

Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o Teu reino antes do tempo venha
E se derrame sobre a Terra
Em Primavera feroz precipitado.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Foto Zilda, campo de tremoços no Alentejo
ao regressarmos do Hospital de Montemor o Novo

domingo, 17 de junho de 2012

Um Deus que actua na história...


“Dorme e levanta-se noite e dia, enquanto a semente germina e cresce, sem ele saber como”(S. Marcos 4,27)

A semente foi semeada nos campos da nossa terra, no nosso quintal, no vaso das nossas varandas… Alguém disse um dia que foi semeada numa sexta-feira Santa… É por isso que nunca poderemos deter a força desta semente.



sábado, 16 de junho de 2012

Entrega sempre a tua beleza

Venho poucas vezes, falta o tempo, falta entrega e generosidade, falta beleza, faltam palavras. Não sei se amo ou se perdi a capacidade de amar, se vejo a beleza  das coisas que me rodeiam ou fecho os olhos diante delas,  mas sei que vivo e Deus vive em mim. Sinto desejo de voltar a ser alegre e a deixar-me  queimar pelo sol, de dizer de mim o que em mim permanece de verdade, mas calo-me, porque esqueci o que sabia de mim. 

As minhas pernas estão mais fracas em cada dia, com frequência caio sem me magoar demasiado, porque ando devagar. Só posso, só devo andar devagar. Os músculos descontrolam-se ao sabor de um simples toque ainda que seja de ternura. De tudo o que fui, ficou a mulher frágil e desajeitada que sou... Da mulher que apesar de tudo, se entrega à vida, sem cálculos, sem muitas palavras, tal como diz o poema de Rilke. 
Tenho um amigo, cujas coisas gosto de reler e de vez em quando, que diz: "A vida de Jesus, a força dos seus gestos, atesta que Deus é dom incondicional de si para a vida de todos... é esta a verdade que salva". 
Hoje fico diante desta verdade que me salva, sem mais... e porque sinto que é preciso perder tudo para ganhar de novo. 


 


Entrega sempre a tua beleza
sem cálculo, sem palavras.
Calas-te. E ela diz por ti: eu sou.
E com mil sentidos chega,
chega finalmente a cada um.

Rainer Maria Rilke, 
in “O Livro das Imagens"


Foto de José Romano
A lagoa dos cântaros - Serra da Estrela

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Tocar a outra margem...


Recolho esta imagem de um powerpoint e guardo-a, ela tem sentido para mim.
Ao celebrar este acontecimento de fé que é a vinda do Espírito Santo, entre os limites do meu entendimento, da minha fé e sobretudo de poder verbalizar emoções tão intimas, perguntava-me como sempre: afinal o que é o espírito santo para mim? Como o sinto? Como vivo a sua presença ou não?
A resposta demora... É preciso parar, respirar fundo, ligar-me à Vida que me sustenta, é preciso... É preciso que tudo seja pensado de novo...
Deito-me cansada e no silêncio do meu quarto, deixo-me envolver nestes pensamentos até ao momento do abraço que memorizo para não perder de vista, do abraço que me dá força e me faz desejar ser livre, que me aumenta a fé e a esperança e me traz à mente este poema que vos deixo, porque agora o entendo à minha medida… Na "outra margem", está uma mão que acolhe, um vento que sopra levemente, uma luz que brilha, uma flor que desabrocha... apenas porque eu existo.

Não fui margem sem outra margem onde ligar os braços
Mas fui o tempo solto para entrançar os meus cabelos
E o movimento dos teus pés descalços
Não fui a solidão inteira nem reclusa
Daniel Faria

domingo, 6 de maio de 2012

Amo-te Mãe

Mãe, hoje está sol e o sol aquece e dá vida.
As tuas violetas chegaram e trazem sinais da tua presença entre nós. Como te sentimos próxima nesta ausência!
Serás sempre a nossa "Violeta" mais bela, e dela cuidaremos como cuidávamos de ti até o sono nos vencer  e... Até à hora em que quiseste partir para junto do Pai, porque a tua missão tinha acabado aqui neste espaço onde o corpo se move e se relaciona, onde o corpo se toca e se deixa tocar, para que o coração e a alma tenham vida e sintam vibrar o amor. Repito mãe: "No princípio está o dom e no fim o abraço..." E tu estás a receber  esse abraço que só em Deus atinge a plenitude.




sexta-feira, 20 de abril de 2012

poema



Não fui margem sem outra margem onde ligar os braços
Mas fui o tempo solto para entrançar os meus cabelos
E o movimento dos teus pés descalços
Não fui a solidão inteira nem reclusa
Para o único repouso entre o silêncio
Nem fui a flor exausta defendendo-se
De toda a mão que a quis despetalar
Não fui a casa que a si mesma se abrigou
Nem a morada que nunca se acolheu
Mas o tempo a pedir que me deixasse
Naquilo que não fui vim encontrar-me
E sempre que te vi recomecei
Daniel Faria

Não sou, mas sou... em todo o tempo e lugar!
E porque assim o desejo e o sonho, porque no silencio quero encontrar-me e encontrar-Te para recomeçar e porque o dia me devolve a luz que posso e quero partilhar, aqui fica este poema tão belo de Daniel Faria.



domingo, 8 de abril de 2012

"Eu sou o Alfa e o Omega, o Principio e fim..."


Ele está vivo, nos efeitos da sua presença.
Ele está vivo pelo Espírito que derrama nos nossos corações.
Ele está vivo, porque dá vida, ao que está morto.
Ele dá confiança aos que têm medo.
Ele perdoa aos que pecaram
Ele dá força aos fracos
Ele dá a Luz aos que a procuram,
Ele está vivo porque dá a Alegria ao que anda triste
Ele está vivo porque habita todos os lugares da minha terra.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Se a Cruz não me dissesse nada, não era nada para mim… Mas a cruz pode dizer-me tudo o que há a saber sobre Deus. É aí que tudo diz de Si mesmo, enquanto se faz gesto de amor por nós, sem nenhuma condição.
E diante da cruz, o silêncio é a única forma de expressão que me ocorre.



quinta-feira, 5 de abril de 2012



Hoje peço ao Senhor o dom da contemplação... Só assim poderei perceber o mistério da vida que me envolve.
Peço-lhe um olhar puro, e sobretudo um coração capaz de escutar e de ver Deus em cada pessoa, em cada realidade, em cada momento, em cada vida…
Peço-lhe que me ajude a descobri-Lo como Aquele que ama e que serve. Um Deus que me ama, me lava os pés e me pede para amar do mesmo modo.



Pintura de Marko Ivan Rupnik

domingo, 1 de abril de 2012

A semana santa, revela-nos o rosto e o amor que nos salva...


Quatro linhas sobre a cruz.
A primeira linha abre o silêncio
como os braços de Cristo na cruz.
A segunda linha abraça-te até que a voz que te fala
respire no interior da tua escuta.
A terceira linha é a sombra do cajado que conduz
o fio de água para que nunca esqueças a única fonte.
A quarta linha é o próprio rastro d'Aquele que se apaga
entre os quatro pontos cardeais da luz.
Daniel Faria

domingo, 25 de março de 2012

O grão de trigo...


“Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele fica só. Mas, se morrer, produz muito fruto.”(Jo 12, 24).




Somos gerados. criados e amados nesta entrega. Na entrega de Alguém que tal como o grão de trigo se deixa esmagar e dá a Vida para dar vida. 
Jesus é o grão de trigo deixa-se triturar… perde-se para se encontrar connosco e nos fazer encontrar com Ele… 

        
Nesta tarde Senhor,
Como pequeno grão de trigo quero estar Contigo
Posso estar ausente ou distraída
Posso sentir saudade, estar esmagada
Ou até sorrir ao crepúsculo deste final de dia
Mas percebo a tua presença na minha vida
E desejo o TEU AMOR!
         
         
                

quinta-feira, 22 de março de 2012

"escolhe o relento"


Versões do Mundo

Se tiveres de escolher um reino
escolhe o relento
a noite tem brancura do alabastro
ou mais extraordinária ainda

Ao que vem depois de ti
cede o instante
sem pronunciar
seu nome

José Tolentino Mendonça,

in O Viajante sem Sono, Assírio & Alvim, 2009

quarta-feira, 21 de março de 2012

a primavera



Adormeci já tarde, o sono tinha sido cheio de interrupções, mas ao acordar algo de novo acontecera... era primavera!
Olhei em redor procurando algum sinal que tocasse o meu coração e o fizesse bater com mais força. Uma força maior do que aquela que o faz recomeçar em cada dia, mas ficou só o desejo, e um olhar meio perdido que não encontrando local onde poisar se fixou por breves instantes na luminosidade de um quarto cheio de recordações... 
Ajoelho no tapete e deixo-me enternecer e afagar pelo ar que respiro e pelo sol a entrar com suavidade em todo o quarto. Rezo todo o bem recebido mesmo na fragilidade da minha vida, porque é também nesta fragilidade, que Deus se manifesta e me faz sentir amada.  
Fico num silêncio que suaviza a minha saudade e me ajuda a escutar “aquela” voz íntima e única que me fala de ti mãe, que me fala de vida e de amor. 

(flores tiradas da net)


sexta-feira, 16 de março de 2012

Que amo eu, quando Vos amo?

A minha consciência, Senhor, não duvida, antes tem a certeza de que Vos amo. Feriste-me o coração com a Vossa palavra e amei-Vos. O céu, a terra e tudo o que neles existe, dizem-me por toda a parte que Vos ame. Não cessam de o repetir a todos os homens, para que sejam inescusáveis. Compadecer-Vos-eis mais profundamente daquele de quem já Vos compadecestes, e concedereis misericórdia àquele para quem já foste misericordioso. De outro modo, o céu e a terra só a surdos cantariam os Vossos louvores.

Que amo eu, quando Vos amo? Não amo a formosura corporal, nem a glória temporal, nem a claridade da luz, tão amiga destes meus olhos, nem as doces melodias das canções de todo o género, nem o suave cheiro das flores, dos perfumes ou dos aromas, nem o maná ou o mel, nem os membros tão flexíveis aos abraços da carne. Nada disto amo, quando amo o meu Deus. E contudo, amo uma luz, uma voz, um perfume, um alimento e um abraço, quando amo o meu Deus, luz, voz, perfume e abraço do homem interior, onde brilha para a minha alma uma luz que nenhum espaço contém, onde ressoa uma voz que o tempo não arrebata, onde se exala um perfume que o vento não esparge, onde se saboreia uma comida que a sofreguidão não diminui, onde se sente um contacto que a saciedade não desfaz. Eis o que amo, quando amo o meu Deus. (...)

Entoe vossos louvores aquele que compreende, e quem não compreende enalteça-Vos também! Oh! quão sublime sois! Contudo a Vossa morada são os humildes de coração! Levantais os que caíram, e não caem aqueles de quem Vós sois a altura! (...)

Nós agora somos inclinados a praticar o bem, depois que o nosso coração o concebeu, inspirado pelo Vosso Espírito. Mas, ao princípio, desertando de Vós, éramos arrastados para o mal. Contudo, Vós, meu Deus e único Bem, nunca deixastes de nos beneficiar. Com a Vossa graça algumas obras realizámos; mas estas não são eternas. Depois de as termos praticado, esperamos repousar na Vossa grande santificação. Vós sois o Bem que de nenhum bem precisa. Estais sempre em repouso, porque sois Vós mesmo o Vosso descanso.

Quem, dos homens, poderá dar a outro homem a inteligência deste mistério? Que anjo a outro anjo? Que anjo aos homem? A Vós se peça, em Vós se procure, à Vossa porta se bata. Deste modo, sim, deste modo se há-de receber, se há-de encontrar e se há-de abrir a porta do mistério. 

Santo Agostinho 
 In Confissões

quarta-feira, 7 de março de 2012

momentos de beleza









Atravessamos a serra da Estrela desde Viseu, passando por Gouveia, Manteigas, Penhas da Saúde até à Covilhã... um passeio cheio de encanto e de luz, de curvas e contracurvas e de animada conversa.
A presença dos amigos é sempre para mim motivo de acção de graças. Há um bem que recebo e posso oferecer, há um dom que se partilha mutuamente e dá sentido a tudo o que vivo... e na alegria repartida, na brisa leve... tudo tem uma tonalidade que se torna eterna. 

Fica uma sequência de fotos do pôr do sol junto do Lago Viriato, que ilustra alguns desses momentos.


segunda-feira, 5 de março de 2012

Viver de amor


Viver, ou procurar viver de amor é olhar os ramos despidos de uma árvore e não me fixar somente na sua nudez mas perceber que eles se tornarão floridos a seu tempo. É  fixar o olhar nos movimentos suaves das avezinhas  e reaprender a voar... É acreditar que o voo pode tornar-se sublime pela proximidade com o infinito. É ter saudade e viver a saudade deixando que os olhos sequem pela aragem que me envolve, me toca a face e me fala de amor.
Viver de amor é encontrar vida na vida vivida ou ainda por viver. Viver de amor é amar e deixar-me amar. Viver de amor é acreditar que Deus é amor...

Deixo um poema de amor.

Viver de amor? _ Viver-Te a vida
De gloriosa majestade e delícia dos eleitos? _
Por mim _ basta que vivas escondido
Onde eu _ por Ti possa _ escondida, estar contigo
A sós _ como amantes sedentos de solidão _
Um face a face que dure a noite _ que dure o dia.
Um teu olhar _ é quanto basta
Para tornar feliz o amor.

Viver de amor? Não é certamente viver
No alto do Tabor, contemplando-se mutuamente _
Contigo Jesus _ amar é levar-te à cruz,
Ver-me a teu lado _ e sentir-me tesouro _
No teu jardim, poderei _ um dia _ ter-te

Quando a prova _ por inteiro, tiver passado_
No exílio, no entanto _ quero viver a dor
De te amar _ de amor.

Viver de amor? É dar _ e não ter -
Medida que compare o quanto se deu
Sem medir - como calcular o Amor?
Se amor não mede _ a medida que perdeu.
Ao teu coração transbordante de ternura,
Dei todo o divino _ e meu não era _ Corro leve _
Conto apenas com a riqueza que me deste _
O amor que me dá vida.

Santa Teresa do Menino Jesus

Foto da minha amiga Zilda