Neste blog, além de colocar alguns poemas ou textos de que gosto e que me ajudam, gostaria também de deixar pequenas coisas que vou escrevendo e falar um pouco de mim, da minha vida, da minha fé, da minha relação com Deus e o mundo, com o sofrimento e com a alegria, com a ansiedade e a paz...
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
A caminho do presépio
E… neste mundo em que vivemos, cada um de nós, pode encontrar sinais, ter acesso à gruta de Belém porque ali verá o presépio.
Alice
Imagem da net
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
VER o Natal no Advento
« O
nascimento de Jesus deu-se do seguinte modo: Maria, sua Mãe, noiva de José,
antes de terem vivido em comum, encontrara-se grávida por virtude do Espírito
Santo. Mas José, seu esposo, que era justo e não queria difamá-la, resolveu
repudiá-la em segredo. Tinha ele assim pensado, quando lhe apareceu num sonho o
Anjo do Senhor, que lhe disse: «José, filho de David, não temas receber Maria,
tua esposa, pois o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo. Ela dará à luz
um Filho e tu pôr-Lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus
pecados». Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor anunciara por meio
do Profeta, que diz: «A Virgem conceberá e dará à luz um Filho, que será
chamado ‘Emanuel’, que quer dizer ‘Deus connosco’». Quando despertou do sono,
José fez como o Anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu sua esposa.»
Mt
1, 18-25
A liturgia de hoje propunha-nos este texto sobre o Nascimento de Jesus e ao ouvi-lo recordei a pressa e a des-atenção com que tenho vivido estes últimos dias.
Muito trabalho, poderia dizer... e então para quê? Onde está o essencial, aquilo que é verdade e por isso conduz à alegria e a uma espera tranquila que aos poucos me leve a Belém?
Ao olhar Maria e o Menino, ao ver a manjedoura, sinto-me pobre e desejo ser pobre... Sei que assim, Ele terá espaço e eu terei tempo...
De facto nada me faz falta hoje! De nada preciso mesmo que algo no meu corpo esteja doente e me cause dor, só queria purificar o olhar para que o Advento me deixe VER o Natal.
De facto nada me faz falta hoje! De nada preciso mesmo que algo no meu corpo esteja doente e me cause dor, só queria purificar o olhar para que o Advento me deixe VER o Natal.
domingo, 2 de dezembro de 2012
Maranathá
É
bom saber que esperas por todos!
Senhor,
ninguém vive tão à espera como tu!
Na
tua bondade esperas por todos:
pelos
que estão longe e pelos que estão perto.
Pelos
que se lembram
e
pelos que têm o coração submerso no esquecimento mais fundo.
Pelos
que todos os dias te rezam: ‘Vem Senhor’
e
por aqueles cuja oração é uma ferida silenciosa, um tormento ou uma revolta.
É
bom saber que esperas por todos.
E
que na imensidão compassiva da Tua espera,
cada
um pode reaprender o sentido verdadeiro da esperança.
P. Tolentino
Mendonça, Um Deus que dança, 57.
domingo, 25 de novembro de 2012
JESUS É REI
À pergunta feita por Pilatos Jesus diz: “ Sim,
eu sou rei! Mas o meu Reino não é deste mundo”. E Jesus mostrou-nos
com a sua vida, isso mesmo. Não reina à maneira dos homens, o Seu reino é o do
Amor, da Justiça e da Verdade.
De facto na Sua missão a verdade, a justiça, a paz e o bem,
estiveram sempre presentes e foi mostrando a sua concepção e adesão ao Reino que nos anuncia.
Assim, Jesus é de facto Rei, mas é rei de um reino diferente.
É um rei que será despojado das suas coisas e apresentado sem qualquer
beleza. A sua coroa será de espinhos e o manto será rasgado e mais tarde
sorteado. Não vai conquistar nenhum Reino e não vai ter que representar...Porque
“na Cruz Ele diz tudo o que tem a dizer de si próprio” e di-lo com
o seu silêncio.
É este o REI em que acredito, é este o REI que move os meus sentimentos,
toca a minha alma e dá sentido à minha vida.
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
É tudo...
«O
meu amigo não é outro que a metade de mim mesmo; antes ele é um outro eu de
mim.» Matteo Ricci
Tenho
muitos amigos e por isso coloco esta frase, que tirei de um livro
do P. Tolentino Mendonça: "Nenhum caminho será longo". Assim digo a muitos como são importantes na minha vida e o somos na vida uns dos outros.
Nestes "muitos" está incluída a minha família que acompanha e dá
segurança ao meu dia-a-dia.
É certo que gostei do livro pelo título e apresentação mas sei que
escolhi bem, pois o tema toca o transcendente e o humano e tem também citações muito fortes e belas sobre a amizade.
Foi com o António meu cunhado e a amiga Zilda, que ontem fui
até Montemor-o-Novo, no interior Alentejano, pois é aí, no Hospital de S. João de Deus
que fazem o aparelho que uso para poder caminhar. Regressámos ao fim da tarde e pudemos apreciar a beleza do outono, com o vermelho e o amarelo de tantas árvores, a fazer largos corredores, como que a abrir-nos a passagem em gesto de acolhimento e despedida.
Penso que estes apoios que tanto nos ajudam a caminhar são pouco vistos, andam
habitualmente disfarçados pela roupa.
Pois compreendo... mas aqui está o meu, novinho em folha, correias novas, e... brilhante e... pesado!
Pois compreendo... mas aqui está o meu, novinho em folha, correias novas, e... brilhante e... pesado!
Sei que, como sempre, me vai custar a adaptar, mas
seja o que for, será bom. É Tudo! (diria Daniel Faria). E eu digo também: é
tudo, é o melhor, o que me equilibra um pouco mais, faz parte de mim, é um pouco de mim...
segunda-feira, 19 de novembro de 2012
A seiva
“A doçura de um fruto diz da bondade da árvore que
o dá.
Um gesto de Amor diz da grandeza de uma Vida.
E diz da graça divina que tão forte e graciosamente
a atravessa.
É esta seiva vital que a tua fé procura e a tua
vida testemunha?”
(um amigo)
O fruto é medronho (tirado da net)
sábado, 10 de novembro de 2012
Vida + VIDA
Ontem foi o enterro da
mãe de um bom amigo. É sacerdote e na missa falou da ressurreição de Lázaro, repetiu de uma forma bastante serena as palavras de Jesus: “Todo aquele que
vive e crê em mim não morrerá para sempre. Acreditas nisto?” Jo. 11,26
Dei-me conta de que
aquela família, fazia uma despedida com esperança.
No cemitério tudo me
pareceu mais frio, como é meu hábito olho as campas e não me aproximo
muito… Mas fiquei até ao fim…
Conhecia pouco a srª. Maria
José, sei que foi uma mulher que marcou a vida dos seus nove filhos e amigos.
Também não sei bem de que flores ela gostava, mas num dia de festa em que
lá estive, vi que à volta da casa havia canteiros floridos dos quais tenho
algumas fotos. Deixo-lhe ficar os seus malmequeres, neste espaço de partilha.
Esta é a oração que
rezo ou canto muitas vezes, e também aqui fica mais uma vez. Creio mesmo, que no céu se encontraram estas duas mães e sorriram.
Luz terna, suave, no meio da noite,
Leva-me mais longe.
Não tenho aqui morada permanente
Leva-me mais longe.
Que
importa se é tão longe para mim
A
praia onde tenho de chegar
Se
sobre mim levar constantemente
Poisada
a clara luz do Teu olhar?
Nem
sempre Te pedi como hoje peço
Para
seres a Luz que me ilumina
Mas
sei que ao fim terei abrigo e acesso
Na
plenitude da Tua luz divina.
Esquece
os meus passos mal andados
Meu
desamor perdoa e meu pecado
Eu
sei que vai raiar a madrugada
E
não me deixarás abandonado
Se
Tu me dás a mão, não terei medo
Meus
passos serão firmes no andar
Luz
terna, suave, leva-me mais longe:
Basta-me um passo para a Ti chegar.
quinta-feira, 1 de novembro de 2012
A santidade... em dia de todos os Santos
«A poesia é oferecida
a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é
oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra
mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, como uma
possibilidade, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a
repetir a negação todos os dias».
Sophia de Mello Breyner "o retrato de Mónica"
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
Passeio de fim de semana
Foi um maravilhoso
passeio pelo Norte com os amigos da CVX. Momentos de convívio, de visitar ou
revisitar lugares, de encontro com outros amigos e sobretudo de Encontro com
Aquele que nos Congrega no Amor que a tudo dá sentido. Tive de me deslocar
sempre em cadeira de rodas, o meus músculos em cada dia vão empobrecendo e não
consigo caminhar quase nada. Fui no entanto muito mimada e por isso foi um
tempo de ser feliz...
O Poema que fica
de Daniel Faria, tem tanto da minha experiência que o deixo com muito
gosto, só que e porque os meus amigos assim o desejam..."Continuo eu própria a seguir o fio de água no olhar de quem amei"
Terraço da Casa da Torre em Soutelo
Braga - Jardim de Santa Bárbara
O LIVRO SEGUNDO DA NOITE ESCURA, DE SÃO JOÃO DA CRUZ
Quando eu era uma criança de muletas
Estudei o alicerce de coisas paradas
Observei as coisas que se moviam
No olhar estático das coisas que meditam.
Era cirúrgico
Como o homem que opera nas pupilas as
artérias do seu próprio coração.
Estudei um peregrino e outro e outro.
Estavam parados
Contemplavam os passos percorridos
No perímetro da meditação.
Anotei que os alicerces do movimento são
líquidos
Constantes.
Primeiro líquido: a água, nas coisas altas
as nuvens
E penso também nos rios. Segundo líquido:
a saliva
Que curou os cegos. Terceiro líquido: o ar
porque me lembro
Do relâmpago, da velocidade das coisas que
caem. O sétimo líquido:
O sangue do cordeiro.
Quando eu era uma criança parada
Quando não andava numa cadeira de rodas a
empurrar o corpo com
[as mãos
Estudei o movimento dos líquidos
Segui o derrame da semente ao morrer
Caminhasse eu porém e seguiria
O fio de água no olhar de quem amei.
Daniel Faria
terça-feira, 23 de outubro de 2012
A Porta para a VIDA
Disse Jesus aos seus
discípulos: «Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis aos porcos as vossas
pérolas, não vão eles calcá-las aos pés e voltar-se para vos despedaçarem. Tudo
quanto quiserdes que os homens vos façam fazei-o também a eles, pois nisto
consiste a Lei e os Profetas. Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta
e espaçoso o caminho que leva à perdição e muitos são os que seguem por eles.
Como é estreita a porta e apertado o caminho que conduz à vida e como são
poucos aqueles que os encontram!»
Mateus
7, 6.12-14
«A porta que dá para a vida é estreita e o caminho que a ela conduz é apertado. Sim porque o amor, a verdadeira porta para a vida é sempre exigente, pede-nos muito, pede-nos tudo, pede-nos a morte, a morte a nós mesmos. Estranho caminho de vida este ao qual Jesus nos inicia, não te parece?» (do passo a rezar de 21-6-2011)
Esta reflexão tornou-se hoje um tempo de "relação amorosa" que confirma a
minha vida e o meu desejo de seguir o caminho que Deus, me mostra. Um caminho por vezes difícil que eu aceito percorrer, mas que ao mesmo tempo me oferece em cada manhã uma nova possibilidade de
existir, de trabalhar, de lutar e de amar.
"Estranho caminho de vida ao
qual Jesus nos inicia..." Sim estranho, singular e misterioso! Difícil de
encontrar diz o Evangelho.
Tão estranho, tão misterioso, tão
singular que me faz sentir sozinha, única e um pouco perdida numa existência
que me parece não ter escolhido. No entanto, se me fosse dado escolher,
não sei se escolheria outro lugar ou outra porta porque esta tem uma marca especial de paz e bem que está dentro
de mim, embora muitas vezes se torne inacessível até ao meu próprio
entendimento.
Alice
Foto de Zilda Sousa -
antiga vila medieval de Sortelha
domingo, 14 de outubro de 2012
Magnólia
[...] Se puderes ficar em silêncio
Não te igualarás à magnólia, mas repousarás
Como o musgo que lhe cresce no tronco.»
(Daniel Faria)
Só pelo silêncio fecundo e cheio de Deus que, em silêncio me surpreende dia a dia com o Seu Amor...
terça-feira, 9 de outubro de 2012
Convite
O dia estava quente e no céu algumas manchas prateadas davam as boas vindas ao Outono.
O silêncio acentuava-se à medida que me aproximava.
Sentei-me no chão como dantes, sabendo que o levantar seria difícil. Estas sequelas da pólio acentuam-se com o decorrer de cada dia que passa. Silencío qualquer dor que que distraia o meu pensamento do motivo que me fez vir a este local que, pela sua beleza e simplicidade, aquieta o meu espírito e me ajuda a sonhar. Sendo um lugar de saudade, é ao mesmo tempo um lugar que me faz feliz. Basta-me a Tua graça Senhor!
E na limpidez do riacho que se torna espelho, na fragilidade dos ramos que lentamente e em silêncio se curvam pelo tempo, na simplicidade da casa que alberga o caminhante, Tu me ajudas a experimentar a riqueza de um silêncio profundo mas cheio de Vida.
alice
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
Caminho
Na solidão que por vezes preenche os meus momentos, Deus está presente como um oceano de ternura… Sem se
intrometer em nada faz-se presente e nada temo porque Ele me ama.
Sinto que de vez em quando se agudiza a saudade e a
falta da minha mãe, sobretudo em momentos mais marcantes da nossa vida, como
foi o meu aniversário.
E assim faço caminho...
Foto de um amigo - Açores
E assim faço caminho...
Foto de um amigo - Açores
domingo, 30 de setembro de 2012
Pôr-do-sol em tempo de férias
Este foi o tempo de ter tempo…
Para rezar e para
contemplar,
para falar e para
silenciar,
para passear e para
descansar,
para receber e para
dar,
para a vida e para a
saudade,
tempo para o dia e
para a noite…
Uns breves dias de
férias no interior alentejano vendo nascer ou pôr o sol... olhando a natureza
simples e bela, com algumas marcas de fim de verão já visíveis a imprimir-lhe
uma tonalidade de que se misturava entre o princípio e fim, entre permanecer ou
ficar...
Experimentei a
gratuidade de tudo o que nos rodeia e a certeza de que tudo é um dom que nos é
oferecido.
Fotos tiradas por mim
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
Pensamentos sobre a fé
O dom de Deus acolhido pela fé restitui cada um ao segredo
da existência que é o amor...
A fé desenha-se entre duas existências, a de Deus e a de cada
homem e cada mulher…
Sempre que temos a coragem de nos expor Àquele que se nos
expõe a fé acontece...
"A fé dom frágil " P. JFrazão, sj
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
Passar para a outra margem
«Passemos para a outra margem» (Mc 4,35), diz Jesus aos seus discípulos, aí descansaremos…
Este convite que releio, aumenta alguns dos meus anseios e acompanha sonhos da minha vida presente, ao mesmo tempo que fortalece a minha espera num futuro mais fecundo
e promissor.
Fruto da oração e da escuta, sinto que me vou preparando aos poucos e
um dia, finalmente, a tua mão me ajudará a fazer o caminho, a travessia
maior…
O meu passo lento e arrastado, por momentos mais será leve, mais suave, menos doloroso e a "tal" ponte está lá, só preciso
encontrar o local da passagem.
Caminho já nesse sentido, caminho em silêncio procurando fazê-lo com
simplicidade como quem sabe que em todo o lugar é possível o amor.
sábado, 4 de agosto de 2012
Liberdade
Liberdade
Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.
Sophia de Mello
Breyner Andersen
Foto: Praia fluvial do Sameiro - Manteigas
segunda-feira, 30 de julho de 2012
Eu e Daniel Faria...
Diversas vezes tenho deixado aqui poemas de Daniel Faria, mas quem é ele afinal? Questão pertinente...
E é que eu também não sei bem explicar... conheci-o e fui aprendendo a amá-lo e ao lê-lo vou-o conhecendo melhor e identifico-me um pouco com ele, na sua fragilidade, no seu desejo de Deus e na poesia que tenho na alma e não sei escrever...
Aqui fica pois o que hoje foi publicado no Secretariado da Cultura.
Daniel Faria: uma obra singular na poesia
portuguesa contemporânea
Licenciou-se em Teologia e em Estudos
Portugueses e ingressou no mosteiro beneditino de Singeverga, em Roriz, onde
morreu precocemente, aos 28 anos. Em vida, publicou cinco livros de poemas,
incluindo, dois fortíssimos, ambos editados pela Fundação Manuel Leão:
"Explicação das Árvores e de Outros Animais" e "Homens Que São
como Lugares Mal Situados". Postumamente, a mesma fundação publicou
"Dos Líquidos".
Nada daquilo que o poeta procura é uma evidência, e são várias as
alusões à solidão do catre, à aflição e ao pavor de quem espera não se sabe o
quê: «Não tinha nada donde vim. Aqui não encontrei/ O que tive e a cadeira não
serve o meu repouso. (...)
Os poemas não escondem uma certa
desolação, com a imagem recorrente da pedra, coisa inerte, com os
pressentimentos de morte, ou com versos como estes: «O precipício não tem
futuro ou desalento/ Mas um carreiro que atravessa as giestas e o trevo/ Um
carreiro que chega ao seu destino/ Como a lenha podada ao fogo/ A madrugada aos
olhos do mocho./ O desamparo não tem as mãos juntas/ Mas o peito dividido.» (...)
Daniel Faria reivindica uma certa capacidade cristã de
compreender «o humano» enquanto categoria, sobretudo na sua infelicidade. E
escreve sobre homens que são como lugares mal situados, como casas saqueadas,
como caminhos barricados, como esconderijos de contrabandistas, como danos
irreparáveis, como sítios desviados, como projetos de casas. Esses homens (e
mulheres) usam as personagens bíblicas como exemplos, patriarcas como Abraão,
profetas como Elias, amigos como David e Jónatas, mães improváveis como Sara ou
Raquel, ressuscitados como Lázaro, quase ressuscitado como Jonas, a mulher
adúltera perdoada, o filho pródigo recompensado, e até Zaqueu, que subiu a uma
árvore para ver Jesus.
Mais do que uma poesia
"católica", esta é uma poesia "bíblica", porque encontra
nas Escrituras todos os «lugares» do humano, todas as tribulações e redenções. (...) Faria descreve-se como
um cego que fala do que vê, daquilo que vê num «pensamento» atuante, que
transforma, que se transforma. (...)
É uma alegria sofrida, uma certeza magoada, uma plenitude frágil.
É uma alegria sofrida, uma certeza magoada, uma plenitude frágil.
Quando o poeta escreve que ninguém lhe ensinou aquilo,
«fui eu que descobri», quer dizer que a experiência poética pode vir da Bíblia
mas que a experiência humana é dele.(...) O Deus de Daniel Faria tanto é velho-testamentário,
terrível, como o Deus dos Evangelhos, um Deus que acompanha: «Desataste-nos
do pó desfivelando as sandálias/ Tu caminhas sobre os nossos pensamentos.»
A poesia de Daniel Faria pertence ao seu
tempo, porque supõe um vazio ou uma ausência. Mas é também "inatual",
e por isso marcante, porque descobre um sentido, um sentido que religa. Faria
acreditava que no princípio era o verbo, uma convicção tão religiosa quanto
poética: «É ele que conserva o mecanismo dos pássaros/ É ele que move
os moleiros quando param os moinhos/ É ele que puxa a corda dos bois e a linha/
Do céu que assinala os limites dos montes// Ele é que eleva o corpo dos santos,
é ele/ Que amestra o pólen para o mel, ele decide/ A medida da flor na farinha/
Ele deixa-nos tocar a orla dos seus mantos.»
segunda-feira, 23 de julho de 2012
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