segunda-feira, 24 de junho de 2013

Os canteiros da minha casa


"Pensando bem, ler não é mais do que criar um pequeno jardim no interior da nossa memória. Cada livro vai trazendo alguns elementos, um canteiro, um carreiro, um banco onde podemos descansar quando estamos cansados”. Susana Tamaro

E assim vou acrescentando canteiros ao nosso jardim. Sim “nosso”, meu e do papi. Na nossa casa cheia de memórias habitam recordações, saudades e silêncios, mas também a alegria e o perfume das flores.
Sempre que encontro motivos, planto um canteiro que precisa muito cuidado e rego-o com atenção redobrada, pois cada canteiro é pertença do jardim, onde, pelo fim da tarde, passeio um pouco na companhia de Deus. Aprendo com Ele como se pode viver de memórias e de confiança.

" E a confiança permite-nos tanto"…(P.José Frazão, sj)


sábado, 22 de junho de 2013

A amizade tem sabor...

“A amizade não se alimenta de encontros episódicos ou de feitos extraordinários. A amizade é um contínuo. Tem sabor a vida quotidiana, a espaços domésticos, a pão repartido, a horas vulgares, a intimidade, a conversas lentas, a tempo gasto com detalhes, a risos e a lágrimas, à exposição confiada, a peripécias à volta de uma viagem ou de um dia de pesca. A amizade tem sabor a hospitalidade, a corridas atarefadas e a tempo investido na escuta.”

In: Ao lado do teu amigo, nenhum caminho será longo
P. Tolentino Mendonça


Tem de facto "sabor bom" porque sabe bem, o pequeno trecho do livro deste um escritor/poeta de que gosto muito. Da amizade diz que é exposição confiada, escuta, tempo, oferta e acolhimento do dom.  
Por isso, por este pouco e quase tudo, aqui volto à convivência dos amigos e dos leitores, ainda que seja só para colocar coisas belas que outros escrevem e eu acolho como um dom à minha existência.
É que a vida é mesmo feita de acontecimentos onde o outro, o amigo, está implicado.


terça-feira, 4 de junho de 2013

Chamo-Te


Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.

Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só de Teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que não quero ver.

Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o Teu reino antes do tempo venha
E se derrame sobre a Terra
Em Primavera feroz precipitado.

Sophia de Mello Breyner 


segunda-feira, 3 de junho de 2013

Jesus no mundo todos os dia...


Jesus Cristo é Deus presente no nosso mundo todos os dias. E o pálio é o manto, o abraço, com que nos acarinha e envolve. De pálio (pallium) vêm os cuidados paliativos, que não são apenas os cuidados médicos que são prestados aos nossos doentes terminais; são sobretudo a expressão de um amor maior, de um manto maior, que nos envolve e nos salva em todas as situações.
(Gianluigi Peruggia,L’abbraccio del mantello, Saronno, Monti, 2004)

Não conheço o autor, mas lendo este pequeno trecho não podia deixar de fixar nele o olhar e o coração. Sim! Este é o Jesus que eu conheço... Presente, por vezes silencioso mas terno, cujo abraço me envolve todos os dias. É deste Cristo que posso alimentar-me e é Nele que posso confiar como um Deus presente. Ele é o puro que se deixa tocar por mim.


mesadepalavras.wordpress.com/2013/06/01/quando-o-dia-comeca-a-declinar

Foto: Capela da Árvore da Vida


segunda-feira, 27 de maio de 2013

Acorda

Acorda a alegria que dorme em ti desperta para a presença de Deus que está na vida que te rodeia nos caminhos 

percorridos ou a percorrer 

nos amores encontrados ou a descobrir

e nos flores que desabrocham, só porque sim... 

Alice



quinta-feira, 16 de maio de 2013

Bênção


Recebi ontem e comecei ainda ontem a ler um pequeno livro, "A fé vive de afeto".
Voltei hoje e li mais um pouquinho, mas quero fazê-lo devagarinho para saborear verdadeiramente esta fonte, este manancial de fé e de ternura que me é dado ter nas mãos.
Paro num momento em que diz: "o sorriso da mãe ou, ainda, o timbre da voz da mãe, enquanto gerava no seio, já convocava para a bênção do nascimento". Vou recomeçar as minhas tarefas simples do dia a dia recordando esta bênção.

domingo, 28 de abril de 2013

Flores, com amor

Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei! (João 13,34)
«Aqui, a medida não sou eu. Aqui, a medida é Jesus. Aqui, a medida é sem medida! Aqui, o amor não é interesseiro. Aqui, o amor é puro, radical, incondicional, assimétrico, sem retorno. Aqui, o amor é até ao fim, e obriga-nos a ter sempre como referência o Senhor Jesus e o seu modo de viver, dando a vida por amor, para sempre e para todos!»
D. António Couto


Flores, com amor... Porque o amor vai surgindo e acontecendo em cada dia como uma bênção, tal como a primavera, tal como o azul do mar ou o perfume e a cor das flores que a natureza nos oferece... 


quarta-feira, 17 de abril de 2013

Guarda a manhã



Guarda a manhã
Tudo o mais se pode tresmalhar
Porque tu és o meio da manhã
O ponto mais alto da luz
Em explosão
Daniel Faria

Sim, guardarei a manhã! E farei do meu dia e da minha noite uma manhã de luz...
Guardarei para sempre esta manhã de primavera, de ressurreição e de sol radioso e quente.
Direi a toda a gente que a morte não tem a ultima palavra porque o amor gera vida, que, desabrocha tal com as flores da minha varanda, que reguei com um regador cheio de "luz".
Alice

Foto: de um amigo açoreano

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Flores de Aleluia



Felizes aqueles que aprendem a acreditar para poderem ver os sinais da Ressurreição.

domingo, 31 de março de 2013

Esta é a manhã...



Esta é a manhã… 
É esta a manhã da Ressurreição, em que a vida se enche de perfume.
Este é o dia da água que fertiliza e faz desabrochar, da vida e da Luz que ilumina e enche os corações de esperança… 
Este é o dia da mudança, do novo olhar, do testemunho e do grito de alegria... da passagem para a outra margem.
Cristo renova todas as coisas, todas as pessoas: “Eu sou o Alfa e o Omega, o Principio e o fim”!

Boas festas pascais.

sábado, 30 de março de 2013

Silêncio, intimidade,

Mãe e Filho no Calvário

Silêncio, intimidade, sofrimento e paz… O filho perseguido, maltratado e acabado de morrer na cruz, é-lhe entregue por alguns instantes. O abraço parece conter em si todo o sofrimento do mundo. Maria é mãe e sofre mas entrega-se Ela também porque acredita no Amor e vive na fidelidade a Deus. Hoje anuncia-se o começo de uma Vida Nova, a Vida que não acaba e é fruto do amor levado até ao fim.

Pintura de Sierge Koder  


sexta-feira, 29 de março de 2013

Semana Santa - Eis o Homem!


Três pessoas.
Três mundos
em julgamento!

Mãos possessivas,
seguram os rolos da  Lei.
Olhos vazios, alheados.

A verdade?
Por detrás dessa máscara,
a verdade que não se quer ver.
Na realidade podemos ser todos nós,
quando manipulamos o Evangelho para justificar  o alheamento do que nos rodeia. Quando silenciamos as injustiças, para mantermos, a todo o custo, “as nossas mãos limpas”.
Lavar as mãos, sujando de sangue a água pura.

Eis o Homem!
O servo obediente,
mudo como um cordeiro,
oferecido à violência.
O coração em Paz.
Eis-me aqui, para fazer a tua vontade!

Rina Risitano

Imagens: Koder

quinta-feira, 28 de março de 2013

Semana Santa - Lava pés



«Jesus levantou-Se da mesa, tirou o manto e tomou uma toalha, que pôs à cintura. Depois, deitou água numa bacia e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxugá-los com a toalha que pusera à cintura».

«Compreendeis o que vos fiz? Vós chamais-Me Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque o sou. Se Eu, que sou Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz, vós façais também».

Misterioso este gesto, e cheio de grandeza e humildade, de significado e de entrega. Jesus aos meus pés dizendo-me que me deixe amar querendo ensinar-me como se oferece a vida livremente, sem reservas e sem esperar ou desejar nada em troca… Ponho-me diante de Jesus que me lava os pés e dou-me conta de que a Eucaristia que celebramos, é esta atitude de Jesus prolongada continuamente,  para se encontrar connosco e fazer parte da nossa vida. 

segunda-feira, 25 de março de 2013

Semana Santa - reflexão e poesia

Começámos hoje a Semana Santa. O Domingo de Ramos é uma celebração muito forte e cheia de significado, apelos interiores e de desejos viver e crescer na fé. Também nós/eu, tínhamos ramos e cantámos “Hossana ó Filho de David” como os que aclamaram a entrada de Jesus em Jerusalém.

“A fé vive de afecto…” E, como assim o creio, também eu me quero deixar tocar afectivamente por este acontecimento e torná-lo Vida em mim.  

Sei que esta festa rapidamente se tornou para Jesus em condenação e que levará Jesus até à morte e dou-me conta de não me é estranha esta forma de actuar. Quando tudo está bem aplaudimos e o contrário acontece imediatamente quando se quebram as nossas expectativas. Aí a fragilidade e a falta de confiança vêem ao de cima com uma força que é atroz e que dói.

Hoje ao ouvir a leitura da Paixão (de S. Lucas), percebi os silêncios de Jesus. A partir do meio da narração as Suas palavras começaram a ser cada vez mais escassas: «Vós mesmos dizeis que Eu sou». «Tu o dizes». «Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem».


É este Jesus que vemos diante de Caifás que, agora zangado, levanta a mão Àquele se torna uma ameaça ao seu poder. Jesus apresenta-se como uma alternativa à verdade de Caifás, uma alternativa de amor verdadeiro… E fala de coisas diferentes, tem gestos de compaixão e os seus silêncios são uma afronta ao conforto em que se instalara.


Que semana te espera comigo Senhor? Que semana me espera Contigo?  Subiremos a Jerusalém num encontro de amor e fragilidade que se misturam e sr tocam... Que hostilidades farei? Que hostilidades encontrarei pelo caminho? Como ficarei diante de Ti, Senhor-Rei que tens  espinhos por coroa?

«Vê-Lo-ás preso e, como todos os outros, fugirás. Depois, voltarás e aguentarás, em pé, perante a cruz, perplexo, dorido… E depois?»
 (cito autor desconhecido)
  
 É raro
Eu sei que é muito raro
acontecer
este encontro harmonioso
de tudo quanto sou
com o que fui
sem que me importe muito
de momento
com os caminhos de mim
que ainda desconheço
e que serei
ao tê-los desvendado
nem com aqueles que recusei
para chegar aqui...

(Hélder Macedo)




quarta-feira, 20 de março de 2013

COMO TE EXTINGUES em mim


Ainda no último
e gasto
nó de ar
estás lá com uma
faísca
de vida.


Paul Celan (tradução: Claudia Cavalcanti)

segunda-feira, 11 de março de 2013

Parábola da Alegria - Dois filhos diferentes e um Pai bom


A parábola do filho pródigo de Lc. 15, 11-32, « … é uma janela sublime e sempre aberta com vista directa para o coração de Deus, exposto, narrado, contado por Jesus».(D. António Couto)

A minha janela é a do coração e do desejo…
Saboreio a misericórdia pondo-me no lugar do filho mais novo... Sinto-me como o filho mais velho, insatisfeita, inquieta, receosa... Saltito de um lado para o outro um pouco dividida entre formas diferentes de viver e entender o amor. 
E eis que de novo oiço a voz do Pai, uma voz que conheço e por quem me sinto re-conhecida, aceite, amada. Uma voz inconfundível que diz algo maravilhosamente novo:

«Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu. Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e reviveu; estava perdido e foi encontrado.’»

Tudo acontece num momento de céu, dilui-se a janela... deixo-me abraçar por este Pai que me olha e vem ter comigo... Entro na festa da vida e da Alegria! 


Pinturas de Arcabás

quinta-feira, 7 de março de 2013

derrotar montanhas: Ser capaz!...

derrotar montanhas: Ser capaz!...: Cada vez mais se está a tornar claro para mim, que a ajuda pode enfraquecer o ser humano!... Quando a ajuda se transforma numa substituiç...

terça-feira, 5 de março de 2013

na poesia, a quaresma...



Devo ser o último tempo
A chuva definitiva sobre o último animal nos pastos
O cadáver onde a aranha decide o círculo.
Devo ser o último degrau na escada de Jacob
E o último sonho nele
Devo ser-lhe a última dor no quadril.
Devo ser o mendigo à minha porta
E a casa posta à venda.
Devo ser o chão que me recebe
E a árvore que me planta.
Em silêncio e devagar no escuro
Devo ser a véspera. Devo ser o sal
Voltado para trás.
Ou a pergunta na hora de partir.

Daniel Faria  


 http://www.snpcultura.org/quaresma_2013.html


Cruz, exposição do Mosteiro de Tibães



domingo, 24 de fevereiro de 2013

O amor na Transfiguração


“Enquanto Ele orava, mudou-se a aparência do seu rosto, e a sua roupa tornou-se branca e resplandecente.” (Lc 9,29)

O relato da Transfiguração dá início à caminhada quaresmal no Evangelho de S. Lucas – uma caminhada de paradoxo e mudança. Pedro acabou de proclamar Jesus como o Messias e ambos estão a realizar as longas viagens em direção a Jerusalém.
Alguns comentadores acreditam que a transfiguração tinha a ver com Jesus obter a bênção final do Seu Pai. Outros acreditam que se tratou de permitir que os discípulos escolhidos tivessem um vislumbre da glória de Deus, e da Ressurreição que estava para vir, para que a compreendessem melhor.
Contudo, vejo o monte como uma linha que divide águas, uma encruzilhada. É um momento fundamental que liga o ministério inicial de Jesus ao seu destino em Jerusalém.
O percurso doloroso escolhido significará que daí a poucos meses o mundo dos discípulos será virado do avesso.
Nada mais será o mesmo. A sua tarefa será transformarem o mundo orientados pelo Espírito, o que irá originar a mudança mais profunda que o mundo alguma vez viu.
O poder de concretizar esta mudança, esta transformação, não se baseia na riqueza ou no privilégio, mas sim no amor.
Será centrado nesse último gesto de amor: dar a própria vida para que os outros possam viver.
O amor que era Jesus perdoou aos pecadores, disse que deveríamos dar a outra face, queria que os ricos abdicassem da sua riqueza, disse que éramos todos iguais, falou de modo familiar às mulheres e deu poder aos pobres. Disse que o que fizéssemos ao menor dos seus irmãos era a Ele que o fazíamos.
Este amor é desconfortável, inaceitável, irrealista, ingénuo. É demasiado dispendioso, quebra com todas as normas criadas pelos homens. Este amor está no centro da missão da Igreja: temos a responsabilidade de trabalhar em prol de um mundo que espera um Reino de Deus com paz e justiça aqui na terra e no qual cada pessoa possa prosperar Por isso, embora a ajuda e a caridade sejam necessárias para ajudar as pessoas que têm fome, também é importante trabalhar para transformar o sistema alimentar falhado que mantém as pessoas a passarem fome.

 Chris Bain
Presidente da CIDSE (Cooperação Internacional para o Desenvolvimento e a Solidariedade) e líder da CAFOD,
agência correspondente à FEC em Inglaterra e no País de Gales, mandatada pelos Bispos
para lutar contra a pobreza e a injustiça em nome da comunidade católica.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

na poesia, a quaresma...


Este é o tempo do silêncio... do silêncio que pode não ser solidão mas encontro, do silêncio que não cala totalmente mas pode ser uma forma mais simples de falar e de reconhecer a força da Palavra que abre caminhos de tranquilidade, de paz e de bem. 
Deixo que Daniel Faria me acompanhe e ajude a pronunciar a palavra-pessoa e a tomar consciência de que importa "SER FILHA", filha amada! E senti-lo por dentro,  a partir de dentro... como a pequena vela que se faz luz a partir de seu interior. 
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Há uma palavra pessoa 
Uma palavra pregada ao silêncio de dizer-se como nunca fora ouvida
E nela dizer-se posso existir.
Só posso viver cabendo nela.
Habito-a
Como Jonas o grande peixe.

Ela pronuncia-me
Traz-me em viagem do nada para o silêncio-exemplifico-o com a luz
de um homem que ressuscita-sustenta-me
Como o jejum alimentado em Nínive

Mas também posso ser um vaso para ela
-um vaso não,outra coisa qualquer que não consigo
comparar às coisas da terra-um lugar tão verdadeiro
Que mesmo a luz em suas praças,pátios e alpendres
Só imprecisamente é capaz de assinalar

E como salva a cinza em Nínive espalhando-se
Eu posso propagá-la
E posso amá-la até me transformar. 

Daniel Faria: Homens Que São Como Lugares Mal Situados 


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