segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Maria , a grávida de esperanças...

Caravaggio

«(...) Ponhamos nesta gruta uma mulher grávida, porque é grávida que Maria medita todas as coisas em seu coração. Deixada só pelo anjo da anunciação, reconhece que tudo tem o seu tempo. A sua gravidez também. Um longo tempo é necessário.  
“Está de esperanças”, dizemos de uma mulher que espera bebé. Maria está para gerar na carne Aquele que é desejado há tanto tempo. Haverá sabedoria maior que a de acompanhar a gravidez das biografias e dos tempos? Tudo o que somos tem necessidade de uma longa gestação. Leva tempo a gerar o que devemos fazer nascer: uma criança, um livro, uma decisão de vida, uma vida inteira. Quanta história e quantas histórias foram precisas para que o Filho encarnasse no ventre de Maria? Quantas para que fosse dado à luz? E quanta história e histórias para que S. João chegasse a dizer que Deus é amor? Um corpo de menino, uma frase tão curta, mas uma longuíssima e dramática gestação. Muito tempo foi preciso para dizer tanto e tão sobriamente. E mais tempo precisamos ainda para que este mistério nos faça viver na Sua luz.(...) »
P. José Frazão, sj

Depois de um fim-de-semana de actividades e solicitações que quase não me deram espaço para pensar, faz-me bem hoje, olhar a realidade da minha existência mais comum, familiar e de fé, que se cruzam inevitavelmente numa mistura de alegrias, de saudades e de esperanças, de risos e brincadeiras.
Este texto que vos deixo começou a fazer eco no meu coração a partir ontem ao fim de mais um dia, mais um domingo de advento vivido às pressas, mas recordando que no presépio da minha paróquia foi colocada a imagem de Maria.
“Maria grávida de esperanças…” E penso que hoje cada um de nós que vive na expectativa de mais um Natal, estamos grávidos de esperanças infinitas.
Faço a experiência profunda e consoladora desta esperança intensa que percorre e envolve o meu corpo inseguro e  faz vibrar o meu coração sempre apaixonado.  

Faço meu este canto

Maravilhas fez em mim
Minh’alma canta de gozo
Pois em minha pequenez
Se detiveram seus olhos
E o Santo e Poderoso
Espera hoje por meu sim
Minha alma canta de gozo
Maravilhas fez em mim

Maravilhas fez em mim
Da alma brota o meu canto
O Senhor me amou
Como aos lírios do campo
E por seu Espírito Santo
Ele habita hoje em mim
Que não pare nunca este canto
Maravilhas fez em mim


segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

O anjo do Advento e o meu anjo

Que diremos nós ao Anjo do Advento?

Que o Teu Anjo Senhor
possa testemunhar como trazemos cravada
a necessidade da Tua mão,
a absoluta necessidade de sentir a Tua mão funda,
capaz de nos acolher tal qual somos
tal qual nos encontramos;
Que o Teu Anjo relate este desejo que temos
de sentir o roçar, mesmo que leve,
da Tua imensidão
no precipitado, no precário, no incerto
das nossas quotidianas rotas;
Que o Teu Anjo descreva o que viu em nós:
a fome e o desejo
o labor e a imperfeição
o silêncio e a prece com que dizemos
com que Te dizemos:

Vem!

Texto: José Tolentino Mendonça
Imagem: Rui Aleixo
Sei de um anjo
que me acorda para o dia 
Sei que ele me adormece na noite
Sei de um anjo 
que quer a minha vida cheia de flores
e me ensina que tudo é Graça  
Sei de um anjo 
sim eu sei de um anjo brilhante
que reflete o Amor de Deus
Alice


domingo, 24 de novembro de 2013

a cor do silêncio

Paro aqui porque quero ouvir o silêncio... abrigo-me neste tecto cinzento que deixa passar um raio de sol também silencioso. Sinto o ar que passa pelas frestas desta casa onde escolho hoje morar. 
Acolho a força e a simplicidade do nada porque tudo o que me rodeia me fala de ti... Trago comigo a saudade... e o  silêncio toma as cores de cada ausência, de cada dor, de cada palavra... 
Eis-me aqui para acolher tudo o que me ofereces Senhor.  

Deixo um poema:

O que dói. É tudo.
O que dói
É não poder apagar a tua ausência
e repetir dia após dia os mesmos gestos
O que dói
é o teu nome que ficou como mendigo
Descoberto em cada esquina dos meus versos
O que dói
é tudo e mais aquilo que desteço
Ao tecer para ti novos regressos
Daniel Faria

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Falo do dia de Todos os Santos e da minha terra

Hoje é um dia, em que relembramos o sentido da vida que nos vem da fé. Movimentam-se pessoas e ramos de flores, enfeitam-se os cemitérios, pensamos nas pessoas que se ausentaram do nosso convívio para uma vida feliz que não acabará nunca. Falamos uns com os outros, de Todos os Santos e de felicidade…
E de facto a Felicidade acontece nas possibilidades e nas pequenas certezas do dia-a-dia, está à distância do meu querer, do amor que ponho, ou não, nas coisas que faço, está onde estiver um sorriso ou um abraço…
Olhando este dia de Outono que entrou cheio de força e suavidade nas nossas vidas, se instalou e nos dá menos tempo de luz, penso em tudo quanto é pequeno, frágil e mesmo assim nos alegra e faz felizes, porque nos ensina a amar mais. 
Deixo estas fotos da “minha terra” e uma reflexão sobre a santidade que faz sentido e se faz convite para mim.

«A flor do mundo é a santidade. Ela dá flexibilidade à dureza, torna uno o dividido, dá liberdade ao aprisionado, põe esperança nos corações abatidos, esconde o pão no regaço dos famintos, abraça-se à dor dos que choram. A santidade é anónima e sem alarde. Expressa-se no pequeno, no quotidiano, no usual»

P. Tolentino de Mendonça


Fotos - amiga Zilda

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

A Amizade


Porque o acredito e o sinto, aqui fica para os meus amigos.

"Aquilo de que uma amizade vive também dá que pensar. É impressionante constatar como ela acende em nós gratas marcas, tão profundas e com uma desconcertante simplicidade de meios: um encontro dos olhares (mas que sentimos como uma saudação trocada entre as nossas almas), uma qualidade de escuta, o compartilhar mais breve ou demorado de uma mesa ou de uma conversa, um compromisso comum num projecto, uma ingénua e profunda alegria"... 

P. José Tolentino Mendonça "nenhum caminho será longo" 

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Uma semente que cresce

Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a esta amoreira: Arranca-te daí e vai plantar-te no mar, e ela obedecer-vos-ía.  (Lc 17, 6)


Tão simples e tão pequenino o grão de mostarda, tão frágil na sua pequenez mas acreditando que vai crescer numa relação justa e simples com o ambiente que o cerca… e Jesus fala-me dele dizendo-me que na fé existe simplicidade, existe um coração que se abre ao “outro” a qualquer outro. Acontece em mim como um dom e um desejo de ser e viver para o amor e por amor. 
Convida-me a encontrar Deus em tudo e deixar-me surpreender pelos limites da fragilidade e das dores tão incómodas por vezes, mas ao mesmo tempo pela força que brota do meu desejo de amar e acreditar no amanhã.


Deixo a foto de um campo de mostarda e uma reflexão que me chegou e não resisto em partilhar pela sua verdade e beleza poética mas simples. 

«Oiço bater à porta. Serás tu ainda? Que fruto trazes nas tuas mãos despidas? Um balde? O mar? O mar num balde? As rochas a estalar? O lume a arder em febre? Uma estrela cadente envolta em neblina?
Trazes a história de uma semente pequenina, microscópica. Dizes, para espanto meu, que, lançada à terra, dela nascerá uma árvore grande, em cujos ramos vêm abrigar-se os pássaros do céu, fazendo dela uma lareira carregada de alegria. E dizes, outra vez para espanto meu, que a FÉ tem o tamanho e o virtuosismo dessa semente pequenina, que semeada no meu coração e no coração do mundo pode desenraizar o que nos parece seguro, sólido, assegurado, fazer ruir os nossos cálculos mais estudados, fazer florir o alcatrão das nossas estradas, fazer sorrir a nossa história desgraçada, arrancar embondeiros, plantar no mar aquilo que parece só poder viver na terra».
D. António Couto

sábado, 21 de setembro de 2013

Senhor: é tempo

Senhor: é tempo. O Verão foi muito longo.

Lança a tua sombra sobre os relógios de sol
e solta os ventos sobre os campos.

Ordena aos últimos frutos que amadureçam;
dá-lhes ainda dois dias meridionais,
apressa-os para a plenitude e verte
a última doçura do vinho pesado.
Quem agora não tem casa, já não vai construí-la.

Quem agora está só, assim ficará por muito tempo,
velará, lerá, escreverá longas cartas
e vagueará inquieto pelas alamedas acima e abaixo,
quando caírem as folhas.


Ao ler este poema de Rilke, não resisto ao desejo de o partilhar. 
Enche-me de paz e gratidão pela beleza da poesia que é capaz de tudo tornar perfeito, frágil e sublime. Traz consigo um desejo de silêncio e de fé, de diálogo inquieto mas cheio de esperança... 
Amo em mim a fragilidade e a esperança.

Neste verão que foi tão longo
num tempo sem tempo certo
nos momentos de  sonhos breves
nos frutos que vi crescer
no fulgor dos meus encontros
na tarde que se fez noite
eu Te procuro Senhor! 
Alice



domingo, 8 de setembro de 2013

Encontros

Neste final de dia, domingo, deixo uma  flor cuja simplicidade e brilho me fala e aproxima de Deus.
E esta forma de sentir Deus na minha vida é a oração, é a verdade, é a proximidade com tudo o que me rodeia.
Sei que em mim há uma parte profundamente humana que aproxima ou limita a minha vida e o bem que desejo fazer. Penso que acontece em cada vida, em cada um de nós. 

Olho o meu pai aconchegado no sofá habitual, sempre no mesmo lugar e penso depois naquele casal que hoje à porta da Igreja, sentados no chão, apresentavam uma caixinha de plástico com algumas moedas como que a dizerem: "preciso mais, só isto não"! 
Estava com a Zilda, demos uma moeda e seguimos... 

Reconheço um mundo que me parece tantas vezes injusto, a cair em pedacinhos... e encontro-me a seguir com Deus que se "expõe" a cada um, num pedacinho de Pão. Na verdade acredito que o Encontro se antecipara na entrada de porta. E isso vai acontecendo sempre, através de pequenas coisas, pequenos nadas que me ajudam a reconhecer o AMOR. 

Isto faz a diferença do toque, do abraço recebido e oferecido assim como do olhar, da palavra e do silêncio que agora me habita.

Alice

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Desejos de felicidade

"O desejo mais profundo de uma pessoa é ser feliz. Não só por um momento, mas feliz para sempre. Outra coisa não seria normal! Mas há quem desista desse sonho por lhe parecer uma paixão inútil e impossível, confundindo felicidade com bem-estar ou prazer. Ser feliz é ser fecundo. É esse o significado da palavra. E uma árvore só é fecunda quando é podada. Não se é feliz sem podar o egoísmo."

in "Não há soluções, Há caminhos"
P. Vasco Pinto Magalhães sj

Foto: Zilda Sousa
(Vale do Rossim - Serra da Estrela)

sábado, 31 de agosto de 2013

É noite

De repente tudo ficou escuro, da janela olho o lampião habitual e uma ténue imagem de lua sem cor definida. Uma espécie de bruma triste envolve-me  e não me ajuda a ver o que quer que seja, há uma escuridão húmida, e cheia de ausências...
Volto à infância, ao Hospital da Parede, quero chorar mas não posso, as outras meninas ouvem, as camas estão muito próximas, não devo perturbar o silêncio.

Quero rezar a Oração de Santo Inácio tal como rezo todas noites, não me sai bem a habitual, não é exactamente aquilo que sinto, vivo e experimento agora... Respiro um pouco e faço nova a minha oração: 

Tomai Senhor e recebei, tudo o que sou
tudo o que faço, tudo o que tenho, 
de Ti o recebo e a Ti o entrego nesta noite,
que a Tua vontade seja a minha vontade,
e aquilo que eu desejo verdadeiramente.
Aceita Senhor, tudo o que sou mas dá-me a Tua força 
dá-me a Tu Graça e a Luz da Tua Verdade.
Transforma o meu coração e imprime nele a força do Teu amor, 
Envolve-me nos teus braços
e acolhe-me no Teu coração de Pai e de Amigo
Ilumina a minha noite, agora e sempre.
Amén

Acordei ao som de um música distante, havia sol, sons dos automóveis que passam e de pessoas que conversam perto da janela do meu quarto. Sorrio a um novo dia que começa e soltam-se lágrimas contidas...

Foto: Francisco Esgalhado

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Desafios de Deus




Hoje quero deixar como nota o desafio que me foi lançado de manhã pelo passo a rezar, pedir  a graça de uma existência cristalina que tenha como nascente o próprio Deus.


Foto cedida por Francisco Esgalhado

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Sobre o amor

"Sei que quanto mais amo menos devo conhecer. Não sei explicá-lo. Sei que a luz ao aproximar-se do meio-dia se faz tarde e anoitece." 

Daniel Faria (do livro do Joaquim)

Caminho sem desistir... Ando acima do solo, sem pés... Sento-me numa cadeira também ausente a todos os olhares, uma cadeira leve e sem suportes... Envolve-me uma luminosidade desconhecida, tão branca, tão pura e tão forte ao mesmo tempo... 
Quero fechar os olhos mas eles enfrentam a luz sem medo... Há uma paz "nova" que me habita desde de dentro, oiço uma nova melodia. Que sei eu deste lugar? Nada conheço senão o AMOR que nos envolve, nada conheço senão o teu abraço.
Alice


quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Assunção de Nossa Senhora

Que a  fé de Maria, mãe de Jesus, nos ajude a viver na esperança, na confiança e na simplicidade. A alegria de quem serve e o canto do Magnificat sejam fonte que brota no coração de cada um de nós, neste dia de festa.      
Deixo um poema 


Para Sempre  

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho. 


Carlos Drummond de Andrade 

terça-feira, 13 de agosto de 2013

"Nada me faltará"


Continuo a ir diariamente à fisioterapia, por um lado acredito que, a seu tempo me fará bem, mas por outro sinto um certo um cansaço, ter de sair todos os dias e passar ali cerca de 2 horas...

Hoje tudo me parecia mais custoso, toalhas quentes com tanto calor... por momentos pensei que não ía aguentar e deixei correr uma lágrima silenciosa e breve que secou sem deixar qualquer sinal. 
Fiquei algum tempo a refletir, deitada na marquesa estreita, meio despida, ligada a aparelhos próprios e ouvindo os vizinhos do lado, cada qual com as suas queixas.
Olhei para mim com mais verdade, mais condescendência e muito mais carinho. É que quando me olho assim aceito-me inteiramente, perdoo-me e retomo o caminho partindo do local onde parei: A dúvida que destrói o Amor e embacia o mundo que me rodeia.
Sai reconfortada com as massagens da Sandra.
Hoje quero agradecer a Deus as mãos, as da Sandra que tanto se esforçam para alivio de tantos, sempre confiantes e sem mostrar cansaço. As minhas que têm em cada dedo a marca do coração, as mãos que aprendi a juntar quando rezo.  
Lembrei-me então de que "O Senhor é meu Pastor e nada me faltará. Ele me fará descansar em verdes prados". 


A imagem tirei da net 

sábado, 10 de agosto de 2013

O amor encarnado no quotidiano

Porque esta leitura me ajudou a refletir e a situar na verdade, me trouxe um misto de sentimentos, memórias, vida vivida e certamente ainda por viver. Porque os afetos me são tão caros e há em mim desejo de ir acertando, porque se trata de "novos encontros"... deixo um pequeno extrato do capitulo: A-Deus, SANTÍSSIMO EXPOSTO.


(...) «O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças» (Dt 6,4-5)? Sim, só Deus pode ser amado com todas as forças e com todo o entendimento. Nada nem ninguém, por muito que o quisessem, e mesmo declarando a sinceridade de intenção, poderiam garantir, sempre e em qualquer lugar, o reconhecimento dos afetos mais íntimos, dos desejos mais sinceros de um outro. Em qualquer momento, poderiam deixar de estar à altura das próprias promessas e das expectativas alheias. Por isso, não é justo, sequer, colocar sobre alguém ou alguma coisa esse peso que, simplesmente, nada nem ninguém pode suportar. Só Deus pode ser amado com todo o coração, porque só Ele pode garantir-nos a vida e reconhecer-nos plenamente no mistério que somos. Porque é Ele a origem desse dom que não podemos dar-nos por nós mesmos. E, porque é Ele a plenitude e o reconhecimento do que, com esse dom, pudermos e soubermos realizar. 
Dito isto, seria ainda pouco pensar em Deus como o primeiro amor, ou o maior, entre muitos outros amores. Desse modo, Deus ainda seria um entre tantos, mesmo sendo o maior ou o primeiro entre todos. Seria ainda o absoluto, desligado de nós, aquele que, mesmo que benignamente nos atraísse, continuaria a despertar desconfiança, ressentimento e concorrência. Pelo contrário, amar a Deus com todo o coração, significará amá-lo como o amor de todos os amores (entre pais e filhos, entre amado e amada, entre amigos, entre quem pede e quem dá), o laço de todos os afetos, a compaixão de todos os encontros, a esperança de todos os lugares, a fecundidade de todas as artes. Amá-lo significa reconhecer que sem Ele não podemos viver; que, não o possuindo como coisa nossa, o temos da nossa parte. E, por isso, lhe podemos dizer que permanece para mim um outro e que me é necessário, dado que o que eu sou de mais verdadeiro é o que existe entre nós. É entre-nós entre-tanto-e-tantas- coisas que o nosso amor a Deus se desenha e realiza. Assim, não será amado sem amores e sem afetos, sem encontros, sem lugares e sem artes. Pelo contrário, é nesses amores e afetos, nesses encontros, lugares e artes que Deus é amado. Sim, com todo o coração e com todas as forças. Cada pessoa, cada circunstância, cada elemento do mundo é, de facto, lugar da passagem e do encontro com O-sempre-presente. Neles, o nosso amor A-Deus». 

"A Fé vive de afeto" - P.josé Frazão, sj

nota importante: os negritos são meus...

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Da página em branco...

"Começo a partir da página em branco"

.... escrevo um pouco e deixo esta flor bonita que hoje me ajudou a rezar.
Quando vejo as flores retomo memórias já conseguidas, da beleza que me leva a contemplar Deus que, na natureza se revela... Uma natureza tão pensada e completamente entregue à nossa guarda e à nossa criatividade! 
Também por isso, em cada dia, desejo abrir o coração à esperança e à vida que desabrocha e acontece à minha volta. 

Regressei à fisioterapia e mantenho-me fiel desde segunda feira. A Sandra (fisioterapeuta) continua a ter suavidade e fortaleza nas mãos. Na verdade sinto menos dores... É um bem que recebo e é também uma oportunidade de sorrir à vida.


Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
— Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"

A foto é da minha amiga Sandra

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Santo Inácio de Loiola - O peregrino

«Não sei por onde Deus me leva, mas sei que Ele me conduz para Jesus»... 
(Inácio de Loyola)


Ontem foi dia de festa para os Jesuítas, celebrou-se o dia de Santo Inácio de Loiola, fundador da Companhia de Jesus e o primeiro a fazer a experiência dos Exercícios Espirituais (E.E.) de que tenho falado neste meu blog.
Deixei-me envolver pela festa celebrada na minha Paróquia que está confiada aos Jesuítas. Houve missa solene e almoço partilhado para todos.

Da  biografia de Inácio consta que uma certa  madrugada se retirou para Manresa, e por vários dias, sozinho numa gruta, anotou os sentimentos (ou moções) que experimentava durante a oração que fazia. São essas anotações que se tornaram a base de um pequeno livro chamado Exercícios Espirituais.
Para mim é uma paragem, quase diria descanso. "Aparto-me" da vida comum do dia a dia (telemóveis, computador, televisão...). É um tempo de silêncio, de oração de repensar a vida e sentimentos com mais verdade e autenticidade. É sempre uma ajuda e de uma forma ou de outra, esses dias trazem novidade beleza e força à minha vida.  

Escolhi para deixar nesta postagem a imagem de Inácio peregrino. Para mim ele foi o peregrino do Amor verdadeiro, mas foi peregrino, peregrinando de verdade numa busca constante até conseguir reunir um grupo de companheiros que peregrinassem com ele, vivendo pobremente. Foi assim fundada a companhia de Jesus.
Sinto-me muitas vezes... um pouco em peregrinação, todos estamos afinal! E quando a caminhada se torna custosa, é que percebo o "milagre" de me reconhecer, mesmo assim, muito amada por Deus. Penso que isso faz a diferença entre a forma como se vive a dor física e outras dores... e também como se vivem as alegrias. 
É isto que hoje tenho desejo de partilhar.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

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Aqui e agora, O-sempre-presente restitui-se-nos no que as nossas existências as nossas coisas têm de mais simples. Reduzido a pão que nem pão parece, a corpo que não se vê, o mistério divino pode tocar-se, partir-se, comer-se. Numa vulnerabilidade inaudita, expõe-se até à nossa desconsideração e ao nosso não reconhecimento. Aqui, o Santíssimo é Deus é coisa, é Senhor e é servo, é pastor e é cordeiro levado ao matadouro, é dom e é moeda de troca, é grão lançado à terra e é alimento. Inseparavelmente. E, assim mesmo, enquanto se nos dá na pequenez das nossas coisas - no pão das nossas dores no vinho nas nossas alegrias -, deixa -no espaço para as palavras que haveremos de dizer, para os gestos que haveremos de fazer, para as obras que haveremos de criar, para o corpo que haveremos de ser no concreto do nosso quotidiano e das nossas relações. Como indivíduos. Como comunidade de crentes. Aqui, o que já vimos abre-nos a passagem para o que ainda nos falta ver, o que já conhecemos para o que ainda há de vir, o que já encontrámos para o que ainda desejamos receber. 

A pequena custódia que nos expõe o infinito num pedacinho de pão, não pode não desconcertar-nos. Apercebemo-nos da desproporção? Tão elementar. Tão simples. E, porém, em Jesus morto e ressuscitado, o infinito reclama o pedacinho de pão para se nos dar. É o pouco, mas o necessário, para O-realmente-presente-entre-nós. 
Poderá este lugar, tão humano e tão divino, reclamar menos que o teatro das nossas liberdades e dos nossos sentidos? Diante do Santíssimo assim exposto, somos postos diante duma nudez desarmante. Atrai o olhar e torna-o atento, ferindo-o, porém, na sua volúpia insaciável de imagens. A sobriedade dos gestos e a arte das palavras gera um silêncio, quase seco, que não pode não ferir o palavreado ocioso e violento do linguajar quotidiano, a insensatez e a esterilidade de tantas opções. E, assim, se gera o espaço propício e o ritmo necessário para a palavra criadora, para o gesto fecundo. O corpo que se expõe a ser tocado, comido e saboreado - «Isto é o meu corpo/Hoc est corpus meum»  -  é o mesmo que recusa ser coisa que se faz própria: (Não me tocar/Noli me tangere». Máximo de presença corpórea e máximo de distância indizível).

Da contemplação deste lugar sagrado e da força com que nos deixarmos atravessar por tão desarmante dádiva, germinará a atenção generosa que é própria dos vigilantes; a resposta responsável que é própria dos justos; a fecundidade criadora que é própria dos artistas; a inteligência sensível que é própria dos sábios; a simplicidade de uma vida elementar que é própria dos ascetas; a graça de se definir a partir de um outro que é própria dos místicos.
No quotidiano das nossas existências, no concreto dos nossos ritmos e lugares, o gesto pascal de Jesus retoca os modestos resultados do quotidiano com as grandes esperanças que nos mantêm em vida, o vazio com a abundância inesgotável da Graça, a morte com o Espírito da vida. Comovidos, compreendemos que, aqui, cada coisa, cada fragmento do nosso mundo, cada momento das nossas vidas são resgatados ao seu esquecimento e degradação. E que, todos, são acenos a-Deus, até que Deus chegue a ser tudo em todos.

Diante deste fogo que arde no pão e no vinho, tiramos o calçado. Aqui, aprendemos a ajoelhar-nos. Não para nos rebaixarmos, mas, antes, para nos elevarmos à estatura daquele que se fez O-mais-baixo e, assim, chegarmos mais à altura de nós mesmos e do mistério que a vida é. Será um gesto de amor, profundamente reconhecido, porque o que existe de mais verdadeiro em mim é o que existe entre nós. Será um gesto largo, porque o que existe entre nós é cada encontro humano e cada momento concreto da história. Mesmo que hoje nos pareçam lugares onde Deus não tem lugar, continuam a ser os lugares onde haveremos de reconhecer e de amar O-sempre-presente-entre-nós. Neles, o Santíssimo que se nos dá, expõe-se à nossa disposição de o amarmos com todo o coração. Como nosso Senhor». 

padre José Frazão, sj - do livro "a Fé vive de afeto"
variações sobre um tema vital 
Pintura - Arcabás