segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Tempo de "novo" Advento


Oração diante da manjedoura

Imagem: Rui Aleixo MMXV

Vens ao meu encontro para que caminhe para ti
e na minha dispersão te possa encontrar
Olhas para mim para que te possa ver
Escutas-me e assim me mostras o que é ouvir
Estendes para mim os braços para que aprenda a abraçar
E nasces para que eu possa renascer
P. José Tolentino Mendonça

Eis um convite para mim, para todos, nesta ultima semana de Advento:
A deixar-me acolher... a caminhar como me é próprio mas ao Teu encontro, apresentando-me ao olhar dos outros tal como sou, deixar-me encontrar na vida, aquela que vivo e a que tenho para viver, a escutar Aquele que me ensina a ouvir e sobretudo... para que abraçada, abra os braços para abraçar, abraçada continuar a deixar-me abraçar... continue a nascer, renascendo... e "tudo custa mas tudo é dom"... 
Alice 



sábado, 3 de dezembro de 2016

Vem, Senhor Jesus,

Quando a nossa esperança é "respiro", quando a minha esperança for tão forte e me "revestir de alto a baixo", sem costura, ainda que remendada... já não será a minha esperança estava enganada, será também e sobretudo a esperança para outros! 
E aí sim, nesse local recôndito do meu coração será  também esperança para mim. Deixo um poema.


Como é fácil, Senhor Jesus,
Daqui, de ao pé da tua Cruz,
Avistar a paisagem do Advento,
Compreender-lhe a mensagem,
Respirar-lhe o alento.

Daqui, de ao pé da tua Cruz de Luz,
Sem dúvida o lugar mais alto do mundo,
Mais alto e mais profundo,
Vê-se bem, com toda a claridade,
Que a lonjura do Advento não é horizontal.
Eleva-se em altura.
Como a tua túnica tecida de Alto-a-baixo,
Vertical,
E sem costura.

Tu vens do Alto, Senhor.
Tu vens de Deus.
Tu és Deus.
Tu és o Justo
Que chove das alturas
Sobre a nossa humanidade sedenta e às escuras.

Vem, Senhor Jesus,
Alumia e rega a nossa terra dura,
Acaricia o nosso humilde chão
E modela com as tuas mãos de amor
Em cada um de nós
Um novo coração
Capaz de ver.
Capaz de Te ver
Nascer
Em cada irmão.

D. António Couto


sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

A Estrela do nosso mundo

Em cada Advento renovamos o pedido: " preciso de uma estrela"...
Sim um estrela para o nosso mundo e por essa estrela saberemos que em todas as nossas necessidades o Senhor vem ao nosso encontro. 
A Estrela
Precisamos de uma estrela que desarme a noite'
Precisamos de uma palavra transparente
que nos ofereça a possibilidade de um começo
Precisamos de uma esperança que se propague
Precisamos de lugares límpidos
fora e dentro de nós
Precisamos de reencontrar uma vida onde a prece
e o louvor voltem a ser possíveis
Precisamos de um gesto para dizer uma alegria
maior do que a alegria
Precisamos de acolher o dom
e o seu equilíbrio difícil e leve
Precisamos de alguém que em pleno inverno nos ensine
a trazer no coração a primavera a arder

Imagem: Rui Aleixo MMXV
Texto: José Tolentino Mendonça

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Creio no Céu

Acredito no Céu como acredito no amor, na vida, na água que corre, na semente que brota da terra, no sol que aquece e nas estrelas que iluminam as nossas noites, e depois, penso verdadeiramente que nada tenho, nada sou sou, nada devo esperar, porque tudo me vem e é concedido pelo AMOR de Deus.



Pintra: Van Gogh

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A vida que permanece

«A vida que permanece é aquela que se entrega.»
Assim se foi gastando e entregando esta vida... a dar e a receber amor... e é tão difícil ainda viver esta partida meu querido pai. 
Tenho ficado em silêncio, sinto que há coisas ou momentos de que só o silêncio pode falar assim como só em silêncio se podem viver. E ninguém pode fazer o meu caminho... 
Começo agora a ficar na nossa casa, tem sido lentamente que vou ficando algumas vezes e outras não, mas acho que preciso deste tempo aqui, no lugar onde a minha vida foi partilhada durante tantos anos.


"Isto às vezes é tremendo porque a gente quer exprimir sentimentos em relação a pessoas e as palavras são gastas e poucas. E depois aquilo que a gente sente é tão mais forte que as palavras..." (Lobo Antunes)  

"rezo por ti e por toda a família, na firme esperança de que o teu pai está no Amor do Pai. Força e confiança".

"que o Senhor ressuscitado seja o teu ombro, o teu consolo e a tua força."

... "mas trago-te no coração. Deus te dê a força  das cerejeiras floridas..."

"querida Amiga, deixo um grande beijinho certa de que a Vida que flui a partir de ti é reflexo do Amor e Entrega do teu pai."


quarta-feira, 1 de junho de 2016

O tronco de malmequeres

 
[...] Se puderes ficar em silêncio
Não te igualarás à magnólia, mas repousarás
Como o musgo que lhe cresce no tronco.»
Daniela Faria


Malquereres frescos e cheios de cor, de beleza e de vida rodeiam este ramo seco. Decerto que este pequeno tronco agora ressequido deu vida a outras vidas, a outras flores... Creio que é assim que o amor acontece e se oferece em cada momento à vida.

Neste meu tempo em que preciso ficar junto do meu pai, dou-lhe a mão e deixo que a aperte com força, a força que ainda lhe resta, nestes dias que parecem tornar-se curtos.
Só posso acompanhar, procurar que descanse um pouco. Tal como a magnólia que repousa no silêncio de um abraço contido.
Alice

Foto: Zilda 




segunda-feira, 2 de maio de 2016

O beijo


Por vezes, e de modo muito subtil, as circunstâncias da vida levam-me a acreditar que as noites deixaram completamente de ter estrelas.
Esta minha noite teve sobretudo, “ausência de estrelas” porque comecei a perder a esperança de que as nuvens se dissipassem.
Agora, e depois uma noite difícil à cabeceira do meu pai, recebo o calor e a claridade do sol, desfazendo este engano que nasceu de um olhar cheio de dor e de falta de esperança.
Sinto que a vida do meu pai está muito frágil, cada vez mais... e temo estes momentos que me recordam partidas.

Ontem era o dia da mãe, da minha e de todas as mães. “O beijo de Klimt” que escolhi é para ela com saudade.  

Alice


quarta-feira, 6 de abril de 2016

Páscoa... a Vida Nova



Volto para deixar este rebento, sinal de vida a desabrochar e ao mesmo tempo a flor que já cresceu e será oferta para alguém que passe por aqui e a queira levar.
Venho menos vezes agora, não só por falta de tempo, mas sobretudo por falta de inspiração e também do desejo de a buscar no meu dia-a-dia
Mas hoje quero escrever e descrever a Páscoa... Aquela que acontece cá dentro quando se sai da igreja, neste caso da Vigília Pascal.
Foi num anúncio... quase um rumor. e o sábado Santo a transformar-se em domingo de Páscoa: «AQUELE QtUE VIMOS MORTO ESTÁ VIVO! Aquele que há dois dias vimos suspenso na Cruz e pusemos no túmulo, não está lá... Está VIVO! (...) Aquele que deu a vida está vivo, precisamente porque deu a Vida.» 
(José Frazão, sj)


terça-feira, 15 de março de 2016

Um tempo novo


Volto aqui em tempo de novos desafios e ao mesmo tempo de Quaresma. E percorrer este caminho de mão abertas prontas a acolher e ao mesmo tempo poderem oferecer é de fato o grande convite que O Senhor hoje me faz.

"Este é o dia transformado
Pelo modo como apoio este dia no chão.
Coloco-o na posição humilde dos meus joelhos na terra
Abro-o com os olhos que retiro de todas as coisas quando os fixo"

Foi este pequenino extrato do poema de Daniel Faria: "Este é o novo dia..." que fez desejar também comunicar e comunicar-vos como me sinto pequena diante de uma imensidade de pensamentos e  me pergunto em cada dia por onde e para onde vai este caminho? 

E na verdade, sempre foi assim... O sei sobre o caminho são os meus pés doridos.


sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Será nada me retira a alegria?

junto à foz 

[...] «No entanto, como preservar a alegria quando surgem as dificuldades, a dor? Esta é a operação, cultivar a alegria na complexidade da realidade. Não permitir que a complexidade da realidade anule, esconda, destrua este dom, este fruto maior que é a alegria.» 
(José Frazão Correia, sj)

Saberes e desejos a ter presentes e que sinto, preciso cultivar cada vez mais. Alegria que não posso deixar fugir por entre os custos de um dia como o de hoje.
Bem cedinho para ganhar tempo cá estou eu, no Hospital de Gaia. Laboratório de análises, o irmão João acompanha-me, a Zilda fica de vigia ao carro. Espero pela minha vez... Olho à minha volta e todos estão pior do que eu, porque estão mais tristes! 
Passa mais de meia hora e chamam-me pelo intercomunicador, não tenho frio mas fico a tremer por dentro, também não tenho medo porque o medo destrói a paz que desejo cultivar. 
Entro na sala de colheitas, passo por várias enfermeiras a quem tenho de ir repetindo... Nome completo e data de nascimento... Para provar que que não há engano, sou eu mesma!
Sento-me finalmente junto da pessoa que me vai picar... Uma,  duas, à terceira pede ajuda... Isto está mau diz ela, apanha-me a veia que rebenta antes que o sangue pingue para o tubo. Lá consegue finalmente, já está! É sempre tão difícil apanhar estas veias "queimadas" pela quimioterapia. 
Saímos depressa, quase nem penso na vontade que tenho de comer qualquer coisa. Os outros pavilhões ficam distantes... E aí vamos nós, temos mais encontros marcados para hoje. 

(em 2016)



sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Ouvir a estrela



Que nesta hora de contornos duros
eu possa, meu Deus, ouvir a estrela
e aprenda a seguir, mesmo na
fragilidade,
de vislumbre em vislumbre
a sua transparência preciosamente pura
Não é verdade que a vida não se altera:
Possa eu ouvir de novo a estrela de Deus
que faz mover a noite
Tudo na sua abóbada aberta nos reergue
por isso é possível renascer do alto
onde o amor se declara
na proposta de um começo
Ouvindo a estrela eu descubra
que do fundo de mim
Tu, meu Deus, caminhas para mim.

P. Tolentino de Mendonça


quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

No Natal, a Manjedoira

Hoje, de coração ajoelhado junto à gruta de Belém, também eu desejo aprender como se constrói a manjedoira, em silêncio...


quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

No Natal...Há mais, muito mais

NATAL
Há mais, muito mais…
No Natal há mais do a que luz da vela, o riso
É o espírito da doce amizade que brilha todo o ano.
É compreensão e bondade, é a esperança renascida novamente,
É a estrela da alegria e o crer no menino que vem para nós, simplesmente...

Gedanken an Weihnachten

Há pessoas que nos falam do Deus Menino e há pessoas que nos ajudam a vê-Lo, a senti-Lo e a toca-Lo com os olhos e o coração.
Então queria dizer-vos que ontem me visitou um "Anjo", trazia a alegria estampada no rosto e muito carinho gravado no coração. Era tal como eu imagino os anjos... E trazia imensas asinhas, com os nomes dos meus amigos escritos em cada uma delas.  
Tal como acontece com as crianças quando chega o Menino Jesus, fiquei sem palavras... Muito grata pelo presente que o anjo me fez chegar,  mas ainda mais por tanto carinho.
Não sei mais que dizer... a não ser que  sinto a minha vida como um dom precioso que me foi concedido pelo Deus Menino.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Em tempo de Advento no domingo ALEGRIA



Rezar à luz da estrela do Advento

Visite-nos Senhor tua alegria.
Seja ela o dom que sustém esta hora da nossa vida.
Tenha o poder de reedificar o caído,
de aclarar a tenda que a noite atribulou,
de unir aquilo que a tristeza ou o cansaço interromperam.
Seja ela o sinal da leveza com que nos vês,
a carícia que nos estendes no tempo,
o assobio que inaugura as tréguas.
Dá-nos Senhor, neste tempo,
a alegria como alento revitalizador.
Inscreva ela em nós o sabor
da vida abundante e multiplicada;
perfume cada um dos nossos gestos;
traga às nossas palavras a luz das estrelas
que emprestam à noite uma inesquecível doçura.


Texto: José Tolentino Mendonça

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Em tempo de Advento

Mateus 8, 5-11
«Entrando em Cafarnaúm, aproximou-se dele um centurião, suplicando nestes termos: «Senhor, o meu servo jaz em casa paralítico, sofrendo horrivelmente.» Disse-lhe Jesus: «Eu irei curá-lo.» Respondeu-lhe o centurião:
«Senhor, eu não sou digno de que entres debaixo do meu tecto; mas diz uma só palavra e o meu servo será curado.  Porque eu, que não passo de um subordinado, tenho soldados às minhas ordens e digo a um: ‘Vai’, e ele vai; a outro: ‘Vem’, e ele vem; e ao meu servo: ‘Faz isto’, e ele faz.»

Jesus, ao ouvi-lo, admirou-se e disse aos que o seguiam: «Em verdade vos digo: Não encontrei ninguém em Israel com tão grande fé! Digo-vos que, do Oriente e do Ocidente, muitos virão sentar-se à mesa do banquete com Abraão, Isaac e Jacob, no Reino do Céu.»


domingo, 29 de novembro de 2015

Saber-se esperado

Poema

É bom saber que esperas por todos!
Senhor, ninguém vive tão à espera como tu!

Na tua bondade esperas por todos:
pelos que estão longe e pelos que estão perto.

Pelos que se lembram
e pelos que têm o coração submerso no esquecimento mais fundo.
Pelos que todos os dias te rezam: ‘Vem Senhor’
e por aqueles cuja oração é silenciosa ou com pouca serenidade.

É bom saber que esperas por todos.
E que na imensidão amorosa da Tua espera,
cada um pode reaprender o sentido verdadeiro da esperança.

Adaptada por mim para Eucaristia com crianças
P. Tolentino Mendonça, Um Deus que dança, 57.

Weihnachtskerze 

Tudo fica diferente ao ler e refletir este poema! Enquanto espero, já não sou eu que espero, porque Ele, o Senhor, espera por mim.  
É assim que ao começar este advento, a espera se faz nova bênção, a vida fica mais leve e a cada momento de alegria, ganha sentido. 
Aqui ao lado, o meu pai vai dormindo, neste seu tempo em que a esperança é uma luz ténue, e a alegria por vezes esmorece tal como a vela quando já não quer mais iluminar... 




sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Encontro

«Eu não acredito na morte. Morrendo a toda a hora,
Fui encontrando sempre uma vida melhor.»
Angelus Silesius



Eis-me assim "encontrada", ao som deste tempo e momento em que o Outono quer entrar, e ao mesmo tempo se mostra ainda escondido entre os raios de sol. 
Sento neste chão o coração agradecido, porque o corpo já não me deixa fazê-lo. É o custo de ir vivendo e ir morrendo, bem o sei! SC
Mas gosto de sentir  e viver a alegria que transborda na beleza e na cor de cada dia que passa.

(foto da minha amiga Isabel)




domingo, 16 de agosto de 2015

Segredos guardados

A alegria que provém da compaixão é um dos segredos mais bem guardados da humanidade. 

É um segredo só conhecido de muito poucas pessoas, um segredo a descobrir continuamente. Eu, pessoalmente, tive umas «amostras» dela. 

Quando vim para Daybreak, uma comunidade com pessoas com deficiências mentais, pediram-me para passar algumas horas com Adam, um dos membros deficientes da comunidade. 

Todas as manhãs, tinha que o levantar da cama, dar-lhe banho, barbeá-lo, escovar-lhe os dentes, dar-lhe o pequeno-almoço e levá-lo para o lugar onde ele passa todo o seu dia. Durante as primeiras semanas, quase tive medo, sempre preocupado com não fazer nada mal ou com que ele tivesse algum ataque epiléptico. Mas, pouco a pouco, fui ficando mais calmo e comecei a apreciar a nossa rotina diária. 

Com o passar das semanas, descobri que já era com ansiedade que esperava por aquelas duas horas que passava com o Adam. Sempre que pensava nele durante o dia, experimentava um sentimento de gratidão por o considerar meu amigo. Embora ele não fosse capaz de falar e nem sequer de fazer um sinal de agradecimento, havia um autêntico amor entre nós. 

O meu tempo com Adam tornara-se o tempo mais precioso do dia. Quando uma visita amiga me perguntou um dia: «Não poderias passar melhor o tempo que a trabalhar com um homem deficiente? Foi para fazer esse tipo de trabalho que tiraste o teu curso?», compreendi que não era capaz de lhe explicar a alegria que o Adam me trazia. Ele tinha que descobrir isso por si mesmo. A alegria é o dom secreto da compaixão. Continuamos a esquecer-nos disso e inconscientemente procuramo-la em outros lugares. Mas, cada vez que voltamos para onde existe a dor, conseguimos uma nova «amostra» de alegria que não é deste mundo.

Henri Nouwen, Aqui e Agora 
  

«Eu não entendia e os meus pais também teriam as suas dificuldades, mas sempre me ajudaram a compreender que a minha vida era importante e era um bem, e lutavam para que eu vivesse feliz. Nós não tínhamos automóvel mas, o meu pai levava-me a passear aos seus ombros, as minhas irmãs cresceram, e também elas me pegavam ao colo.
Os meus irmãos muitas vezes, pegavam em mim com força na praia e atiravam-me sobre as ondas do mar. Por isso a minha ligação com o mar, com o sol, e com a natureza…»

Hoje relendo este texto tão belo do Henri Nouwen recordo que, mais tarde, escondidinha de todos, deixava sair do meu pequeno coração magoado, algo que não entendia bem, uma sensação desconhecida que aos poucos se foi extinguindo... (das minhas memórias)

«A voz do meu amado: ei-lo que vem correndo sobre os montes». 
(do livro Cântico dos Cânticos 2,8)

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Convite

Viver do silêncio que não é falta de comunicação, é intimidade, é o mistério da comunhão com o mundo, com as pessoas e com Deus. É viver já, aqui e agora, a paz Anunciada e a vida que me tornará mais livre e me ajudará a reconhecer e percorrer cada caminho e a viver cada distância como quem está sempre a chegar bebendo a Água que refresca e acalma todas as sedes.



"Não digas onde acaba o dia.
Onde começa a noite.
Não fales palavras vãs.
As palavras do mundo.
Não digas onde começa a Terra,
Onde termina o céu
Não digas até onde és tu.
Não digas desde onde é Deus.
Não fales palavras vãs.
Desfaze-te da vaidade triste de falar.
Pensa, completamente silencioso,
Até a glória de ficar silencioso,
Sem pensar."

Cecília Meireles


domingo, 12 de julho de 2015

Moro entre o dia e o sonho

«A nossa casa era muito bonita. Além do pequeno quintal que já referi estava rodeada de canteiros floridos. A porta da entrada principal tinha três escadas em granito e um patamar empedrado onde estavam dois canteiros grandes, um que nos pertencia e outro que era comum com a nossa vizinha. Havia hortênsias nesses canteiros, recordo com muito carinho os seus tons azulados de que eu gostava.
A rua tinha passeios largos onde podíamos brincar à vontade, com árvores de folhas verdes. Era frequente à nossa volta ouvir-se o concerto dos passarinhos que por ali pousavam e faziam os seus ninhos.
Do outro lado da estrada estava uma quinta antiga que ficou dentro do bairro e era nesses terrenos que se encontravam as mimosas e as tílias que me deixaram recordações únicas...»  

(das minhas memórias)


Recordei estes momentos ao ler este poema de Rilke

Moro entre o dia e o sonho
Onde cochilam crianças, quentes da correria.
Onde velhos para a noite sentam
e lareiras iluminam e aquecem o lugar.

Moro entre o dia e o sonho.
Onde tocam claros sinos vesperais
e meninas, perdidas da confusão,
descansam à boca do poço.

E uma tília é minha árvore querida;
e todos os verões que nela se calam
movem outra vez os mil galhos,
e acordam de novo entre o dia e o sonho.

Rainer Maria Rilke