sexta-feira, 17 de julho de 2015

Convite

Viver do silêncio que não é falta de comunicação, é intimidade, é o mistério da comunhão com o mundo, com as pessoas e com Deus. É viver já, aqui e agora, a paz Anunciada e a vida que me tornará mais livre e me ajudará a reconhecer e percorrer cada caminho e a viver cada distância como quem está sempre a chegar bebendo a Água que refresca e acalma todas as sedes.



"Não digas onde acaba o dia.
Onde começa a noite.
Não fales palavras vãs.
As palavras do mundo.
Não digas onde começa a Terra,
Onde termina o céu
Não digas até onde és tu.
Não digas desde onde é Deus.
Não fales palavras vãs.
Desfaze-te da vaidade triste de falar.
Pensa, completamente silencioso,
Até a glória de ficar silencioso,
Sem pensar."

Cecília Meireles


domingo, 12 de julho de 2015

Moro entre o dia e o sonho

«A nossa casa era muito bonita. Além do pequeno quintal que já referi estava rodeada de canteiros floridos. A porta da entrada principal tinha três escadas em granito e um patamar empedrado onde estavam dois canteiros grandes, um que nos pertencia e outro que era comum com a nossa vizinha. Havia hortênsias nesses canteiros, recordo com muito carinho os seus tons azulados de que eu gostava.
A rua tinha passeios largos onde podíamos brincar à vontade, com árvores de folhas verdes. Era frequente à nossa volta ouvir-se o concerto dos passarinhos que por ali pousavam e faziam os seus ninhos.
Do outro lado da estrada estava uma quinta antiga que ficou dentro do bairro e era nesses terrenos que se encontravam as mimosas e as tílias que me deixaram recordações únicas...»  

(das minhas memórias)


Recordei estes momentos ao ler este poema de Rilke

Moro entre o dia e o sonho
Onde cochilam crianças, quentes da correria.
Onde velhos para a noite sentam
e lareiras iluminam e aquecem o lugar.

Moro entre o dia e o sonho.
Onde tocam claros sinos vesperais
e meninas, perdidas da confusão,
descansam à boca do poço.

E uma tília é minha árvore querida;
e todos os verões que nela se calam
movem outra vez os mil galhos,
e acordam de novo entre o dia e o sonho.

Rainer Maria Rilke

quinta-feira, 9 de julho de 2015

reconhecendo-me

Assim me sinto hoje, reconhecendo o Amor do meu Senhor, que me conhece como sou e assim me ama.


«É na disponibilidade que manifestas em dar-me tempo, o tempo de que preciso para percorrer as minhas distâncias, que me reconheço reconhecido.

E na palavra que me dás para que eu possa dizer-me, sim, porque não poderia ter consciência de mim e do dom que a vida é se não narrasse o meu próprio caminho e as direções que tomei, ainda que, tantas, tenham sido erradas. E, também, no lugar que me cedes para que eu assuma, de novo, o meu próprio lugar, à medida e ao ritmo das minhas possibilidades.

Quando me reconheces no que sou - e não me exiges que finja ser o que não sou -, sou eu que reconheço com gratidão o quanto já me foi dado e, sobretudo, o que ainda poderei ser. Assim mesmo, sempre que entre-nós-me-reconheço-reconhecido, já bebo da vida que é eterna - toco a sua origem sagrada, recoloco-a nos lugares do meu quotidiano, confirmo a bondade do desejo de a ver resgatada à usura do tempo. No teu reconhecimento, vivo. Entre-tanto, aprendo a reconhecer que, assim, Deus se me vai revelando.»

José Frazão Correia, in "A Fé vive de afeto"