quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Testamentos de vida e de morte










Uma vida que é feita de surpresas e sonhos, histórias e memórias... Mas também uma vida onde o coração bate e ama, a cabeça pensa e a "alma" reza...
Por isso mesmo aqui fica este artigo.

« Não deverá ser vinculativa uma declaração antecipada de vontade de recusa de tratamentos úteis à salvaguarda da vida.

Volta à ordem do dia a discussão sobre o chamado "testamento vital". Há quem sublinhe a diferença entre a consagração legal deste instituto e a legalização da eutanásia. Mas há também quem receie que desta forma se abram as portas a esta legalização.
Não será justificado esse receio se o testamento vital servir para manifestar a vontade do "testador" no sentido da abstenção de tratamentos inúteis ou desproporcionados (no âmbito da chamada "exacerbação terapêutica"). Mas já não será assim quanto a tratamentos úteis e proporcionados na perspectiva da salvaguarda da vida. Os modelos de testamento vital anexos ao projecto apresentado pelo Bloco de Esquerda são claros a este respeito: aí se contempla a recusa de tratamentos que permitam salvaguardar uma vida sem capacidades de autonomia ou sem "qualidade". Respeitar uma declaração deste tipo é confirmar aquela ideia, subjacente à legalização da eutanásia, de que a vida pode deixar de ser merecedora de tutela quando perde "qualidade". Trata-se de veicular uma mensagem cultural de desvalorização da vida limitada pela doença que não deixa de ter graves consequências sociais.

Dir-se-á que há que respeitar o princípio da autonomia, evitar tratamentos forçados, respeitar uma vontade do doente previamente formulada quando este não a pode manifestar actualmente por estar inconsciente (a sua incapacidade não o faz perder direitos - argumenta-se). Mas é diferente o respeito por uma vontade actual e esclarecida (que não suscita dúvidas sobre o seu sentido autêntico) e o respeito por uma vontade hipotética, com base em declarações prestadas anteriormente num contexto muito diferente do actual (de forma necessariamente pouco esclarecida, precisamente por esse contexto ser diferente do actual). Não se trata apenas de considerar a dúvida sobre a informação a que possa ter tido acesso a pessoa quando formulou essa declaração, ou sobre se a situação em que se encontra agora era, para ela, nessa altura, previsível. Nem também a possibilidade de o estado dos conhecimentos médicos se ter alterado desde então. É que subsiste sempre a dúvida (independentemente do tempo decorrido e da possibilidade de revogação da declaração) a respeito de saber se a pessoa não poderia mudar de opinião.

É sabido como é frequente uma atitude de grande apego à vida nos seus últimos momentos e diante da revelação de uma doença, mesmo da parte de quem havia manifestado uma atitude contrária quando se encontrava são. Tem sido evocado o exemplo da médica francesa Silvie Ménard, que rasgou o seu testamento vital depois de lhe ter sido diagnosticado um cancro, porque passou a querer "lutar" até ao fim. E um caso ocorrido num hospital de Cambridge em Julho deste ano também é significativo: estavam os médicos para desligar um aparelho que mantinha em vida Richard Ruud, um homem paralítico e inconsciente devido a um acidente, baseados numa declaração de vontade que este havia formulado verbalmente alguns anos antes a propósito de um amigo também vítima de um acidente análogo; quando ele, através do abrir e fechar de olhos, manifestou a sua oposição, que veio a ser atendida. Afirmou, então, o pai, que tinha autorizado os médicos a desligar o aparelho: "Estou feliz por lhe ter sido dada a oportunidade de sobreviver. Decidir se um filho deve, ou não, viver é quase impossível".

Está em jogo o mais fundamental dos bens e a mais claramente irreversível de todas as decisões. "Há solução para tudo menos para a morte" - diz o povo. Depois da morte, não há nada a fazer. Depois de salva a vida, quem disso beneficia sempre poderá pôr-lhe termo pelos seus próprios meios (o que até será pouco provável). Mais vale, pois, salvar uma vida do que tomar uma decisão irreversível que conduz à morte sem a certeza absoluta de que seria essa a vontade do doente. Esta dúvida há-de subsistir sempre. Rege aqui o princípio in dubio pro vita.

Por isso, não deverá ser vinculativa, nem deverá ser observada, uma declaração antecipada de vontade de recusa de tratamentos úteis e proporcionados na perspectiva da salvaguarda da vida. Só assim o testamento vital não será uma porta aberta à eutanásia. »

Artigo do Público, 2010-10-25 Pedro Vaz Patto

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Oração


Senhor!
Desejo olhar-te enquanto me lavas os pés...
Quero falar-Te neste momento em que sinto que me ouves, porque o teu olhar se fixa em mim com ternura!

Necessito e desejo silenciar a minha vida, os meus medos e as minhas paixões…
Ensina-me o dom do silêncio fecundo, que em Ti e Contigo, adquire o novo sentido da oferta.

Necessito e desejo esvaziar-me de tantas coisas, que pelo excesso, retiram a liberdade à minha existência…
Ensina-me o dom da sensatez que me enche de Ti, porque só de Ti precisa, para viver a fecundidade de me abrir, acolher e escutar o outro.

Necessito e desejo fazer desabrochar no meu coração um amor que viva e se alimente da Tua presença na minha vida…
Ensina-me o dom da gratidão e da entrega nas Tuas mãos de Pai e Amigo, cujo abraço dura para sempre.

Alice

sábado, 16 de outubro de 2010

Hoje há festa no céu


O João Pedro fez festa connosco no seu Baptismo... E assim a festa estendeu-se da terra ao céu.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Falar da alegria

A alegria que provém da compaixão é um dos segredos mais bem guardados da humanidade. É um segredo só conhecido de muito poucas pessoas, um segredo a descobrir continuamente. Eu, pessoalmente, tive umas «amostras» dela. Quando vim para Daybreak, uma comunidade com pessoas com deficiências mentais, pediram-me para passar algumas horas com Adam, um dos membros deficientes da comunidade. Todas as manhãs, tinha que o levantar da cama, dar-lhe banho, barbeá-lo, escovar-lhe os dentes, dar-lhe o pequeno-almoço e levá-lo para o lugar onde ele passa todo o seu dia. Durante as primeiras semanas, quase tive medo, sempre preocupado com não fazer nada mal ou com que ele tivesse algum ataque epiléptico. Mas, pouco a pouco, fui ficando mais calmo e comecei a apreciar a nossa rotina diária. Com o passar das semanas, descobri que já era com ansiedade que esperava por aquelas duas horas que passava com o Adam. Sempre que pensava nele durante o dia, experimentava um sentimento de gratidão por o considerar meu amigo. Embora ele não fosse capaz de falar e nem sequer de fazer um sinal de agradecimento, havia um autêntico amor entre nós. O meu tempo com Adam tornara-se o tempo mais precioso do dia. Quando uma visita amiga me perguntou um dia: «Não poderias passar melhor o tempo que a trabalhar com um homem deficiente? Foi para fazer esse tipo de trabalho que tiraste o teu curso?», compreendi que não era capaz de lhe explicar a alegria que o Adam me trazia. Ele tinha que descobrir isso por si mesmo. A alegria é o dom secreto da compaixão. Continuamos a esquecer-nos disso e inconscientemente procuramo-la em outros lugares. Mas, cada vez que voltamos para onde existe a dor, conseguimos uma nova «amostra» de alegria que não é deste mundo.

Henri Nouwen, Aqui e Agora


Meus sobrinhos... Minha alegria!

O que é a alegria?
Talvez uma forma de estarmos mais abertos à alegria é estarmos também mais abertos ao mistério de Deus.
A alegria surge, quando ainda pode haver a surpresa.
Quando achamos que temos a última resposta, pouco sobra para a alegria, pouco sobra para Deus.
Manuel Vilhena (extracto de artigo)

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Abraço...



Ao ler este testemunho simples e despretensioso, veio à minha mente o abraço emocionado de cada um dos mineiros do Chile...





Abraço...

É demonstração de afecto
Carinho e muito amor
É saudade e lágrima
Mas também o calor

Abraço é amar
É querer aconchego
É sentir um amigo
Com todo o seu apego

Podemos abraçar
Uma causa uma pessoa
Abraço é abraço
É cingir e cercar
É não sentir espaço

Abraçar uma causa
É o que nos faz sentir
Que quem luta acredita
E nunca deve desistir

Abraçar uma criança
Transmitir-lhe carinho
É dizer-lhe com os braços
Que nunca estará sozinho

Abraçar um amigo
Com toda a fraternidade
E como dizer estou aqui!
Para a toda a eternidade

Abraçar um amor
Com toda a compreensão
É desatar todos os nós
E fazer um laço de união

Vamos assim abraçar
Uma criança, uma causa
Um amigo e o nosso amor?
Custa tão pouco abraçar...
Acreditem não dá dor!

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Busca...


«Busco a doçura profunda,
a que nunca ninguém viu,
e cuja existência não pode ser posta em causa,
pois é a ela que
devemos a beleza perfumada dos jacintos, a luz nos olhos espantados dos animais e tudo o que, sobre a terra e nos livros, o que há de bom.»
Christian Bobin



Sempre à busca como quem sabe que a seguir a cada noite chuvosa surge uma manhã de sol!

Foi assim que começou hoje o meu dia... Sonolenta por uma noite solitária e mal dormida. Um enorme cansaço tinha tomado conta de todo o meu ser, neste caminhar em busca da doçura que não encontrei em parte alguma a não ser hoje na Eucaristia.

É dia de S. Francisco de Assis... e em certo momento dou-me conta que de novo sou capaz de rezar. Rezar com sentimentos de quem fala com alguém que me conhece e me diz: "os jacintos" são teus, criei-os para ti, hoje e sempre, porque te amo.
Como Francisco ouso hoje cantar o Sol, a Lua e as Estrelas e com simplicidade quero olhar todos os que me rodeiam e dizer-lhes olhos nos olhos: Paz e Bem!

Dou-me conta, de que nada é mais gratificante do que continuar a amar aqueles que em certos momentos trouxeram "morte", decepção ou tristeza à minha vida. Compreendo que faz parte do meu ser, continuar a amar e acreditar que me escolheste para Ti, Senhor! Porque sim... Só por amor! Não permitas que a fragilidade em que vivo me afaste de Ti.

Sento-me na beira da minha cama e deixo rolar na minha face uma lágrima de paz e bem, um sinal de gratidão por tanto bem recebido.

sábado, 2 de outubro de 2010

"O Caminho é o abandono da criança que adormece, sem medo nos braços de seu Pai"
Stª Teresinha