domingo, 16 de agosto de 2015

Segredos guardados

A alegria que provém da compaixão é um dos segredos mais bem guardados da humanidade. 

É um segredo só conhecido de muito poucas pessoas, um segredo a descobrir continuamente. Eu, pessoalmente, tive umas «amostras» dela. 

Quando vim para Daybreak, uma comunidade com pessoas com deficiências mentais, pediram-me para passar algumas horas com Adam, um dos membros deficientes da comunidade. 

Todas as manhãs, tinha que o levantar da cama, dar-lhe banho, barbeá-lo, escovar-lhe os dentes, dar-lhe o pequeno-almoço e levá-lo para o lugar onde ele passa todo o seu dia. Durante as primeiras semanas, quase tive medo, sempre preocupado com não fazer nada mal ou com que ele tivesse algum ataque epiléptico. Mas, pouco a pouco, fui ficando mais calmo e comecei a apreciar a nossa rotina diária. 

Com o passar das semanas, descobri que já era com ansiedade que esperava por aquelas duas horas que passava com o Adam. Sempre que pensava nele durante o dia, experimentava um sentimento de gratidão por o considerar meu amigo. Embora ele não fosse capaz de falar e nem sequer de fazer um sinal de agradecimento, havia um autêntico amor entre nós. 

O meu tempo com Adam tornara-se o tempo mais precioso do dia. Quando uma visita amiga me perguntou um dia: «Não poderias passar melhor o tempo que a trabalhar com um homem deficiente? Foi para fazer esse tipo de trabalho que tiraste o teu curso?», compreendi que não era capaz de lhe explicar a alegria que o Adam me trazia. Ele tinha que descobrir isso por si mesmo. A alegria é o dom secreto da compaixão. Continuamos a esquecer-nos disso e inconscientemente procuramo-la em outros lugares. Mas, cada vez que voltamos para onde existe a dor, conseguimos uma nova «amostra» de alegria que não é deste mundo.

Henri Nouwen, Aqui e Agora 
  

«Eu não entendia e os meus pais também teriam as suas dificuldades, mas sempre me ajudaram a compreender que a minha vida era importante e era um bem, e lutavam para que eu vivesse feliz. Nós não tínhamos automóvel mas, o meu pai levava-me a passear aos seus ombros, as minhas irmãs cresceram, e também elas me pegavam ao colo.
Os meus irmãos muitas vezes, pegavam em mim com força na praia e atiravam-me sobre as ondas do mar. Por isso a minha ligação com o mar, com o sol, e com a natureza…»

Hoje relendo este texto tão belo do Henri Nouwen recordo que, mais tarde, escondidinha de todos, deixava sair do meu pequeno coração magoado, algo que não entendia bem, uma sensação desconhecida que aos poucos se foi extinguindo... (das minhas memórias)

«A voz do meu amado: ei-lo que vem correndo sobre os montes». 
(do livro Cântico dos Cânticos 2,8)