segunda-feira, 30 de julho de 2012

Eu e Daniel Faria...

Diversas vezes tenho deixado aqui poemas de Daniel Faria, mas quem é ele afinal? Questão pertinente...
E é que eu também não sei bem explicar... conheci-o e fui aprendendo a amá-lo e ao lê-lo vou-o conhecendo melhor e identifico-me um pouco com ele, na sua fragilidade, no seu desejo de Deus e na poesia que tenho na alma e não sei escrever...  
Aqui fica pois o que hoje foi publicado no Secretariado da Cultura.


Daniel Faria: uma obra singular na poesia portuguesa contemporânea

Licenciou-se em Teologia e em Estudos Portugueses e ingressou no mosteiro beneditino de Singeverga, em Roriz, onde morreu precocemente, aos 28 anos. Em vida, publicou cinco livros de poemas, incluindo, dois fortíssimos, ambos editados pela Fundação Manuel Leão: "Explicação das Árvores e de Outros Animais" e "Homens Que São como Lugares Mal Situados". Postumamente, a mesma fundação publicou "Dos Líquidos".  

Nada daquilo que o poeta procura é uma evidência, e são várias as alusões à solidão do catre, à aflição e ao pavor de quem espera não se sabe o quê: «Não tinha nada donde vim. Aqui não encontrei/ O que tive e a cadeira não serve o meu repouso. (...)

Os poemas não escondem uma certa desolação, com a imagem recorrente da pedra, coisa inerte, com os pressentimentos de morte, ou com versos como estes: «O precipício não tem futuro ou desalento/ Mas um carreiro que atravessa as giestas e o trevo/ Um carreiro que chega ao seu destino/ Como a lenha podada ao fogo/ A madrugada aos olhos do mocho./ O desamparo não tem as mãos juntas/ Mas o peito dividido.» (...)

Daniel Faria reivindica uma certa capacidade cristã de compreender «o humano» enquanto categoria, sobretudo na sua infelicidade. E escreve sobre homens que são como lugares mal situados, como casas saqueadas, como caminhos barricados, como esconderijos de contrabandistas, como danos irreparáveis, como sítios desviados, como projetos de casas. Esses homens (e mulheres) usam as personagens bíblicas como exemplos, patriarcas como Abraão, profetas como Elias, amigos como David e Jónatas, mães improváveis como Sara ou Raquel, ressuscitados como Lázaro, quase ressuscitado como Jonas, a mulher adúltera perdoada, o filho pródigo recompensado, e até Zaqueu, que subiu a uma árvore para ver Jesus.

Mais do que uma poesia "católica", esta é uma poesia "bíblica", porque encontra nas Escrituras todos os «lugares» do humano, todas as tribulações e redenções. (...) Faria descreve-se como um cego que fala do que vê, daquilo que vê num «pensamento» atuante, que transforma, que se transforma. (...) 
É uma alegria sofrida, uma certeza magoada, uma plenitude frágil.

Quando o poeta escreve que ninguém lhe ensinou aquilo, «fui eu que descobri», quer dizer que a experiência poética pode vir da Bíblia mas que a experiência humana é dele.(...)   O Deus de Daniel Faria tanto é velho-testamentário, terrível, como o Deus dos Evangelhos, um Deus que acompanha: «Desataste-nos do pó desfivelando as sandálias/ Tu caminhas sobre os nossos pensamentos.»

A poesia de Daniel Faria pertence ao seu tempo, porque supõe um vazio ou uma ausência. Mas é também "inatual", e por isso marcante, porque descobre um sentido, um sentido que religa. Faria acreditava que no princípio era o verbo, uma convicção tão religiosa quanto poética: «É ele que conserva o mecanismo dos pássaros/ É ele que move os moleiros quando param os moinhos/ É ele que puxa a corda dos bois e a linha/ Do céu que assinala os limites dos montes// Ele é que eleva o corpo dos santos, é ele/ Que amestra o pólen para o mel, ele decide/ A medida da flor na farinha/ Ele deixa-nos tocar a orla dos seus mantos.»

Pedro Mexia 
Expresso (Atual), 28.7.2012 
http://www.snpcultura.org/
Pintura de Claude Monet-lirios

quinta-feira, 19 de julho de 2012

"Se fores pelo centro de ti mesmo"



" Se fores pelo centro de ti mesmo..." Deixar-te-ás encontrar, cada vez mais, pelo Senhor. 
É um eco que permanece em mim e me tem acompanhado nos últimos dias. Depois de três dias de silêncio, oração e reflexão em Soutelo... Exercícios Espirituais em grupo, mas orientados de forma que cada um faça o seu caminho, para melhor se encontrar consigo próprio em Deus e com Deus. 

Em cada momento de encontro recebíamos algo, que para mim, tinha sabor a um presente de amizade e bem. Imagino que vindo da parte de Deus... E embrulhado conforme as suas diferentes cores e modelos. Continham uma frase ou um poema de Daniel Faria, alguém que com a sua poesia me ajuda a percorrer caminhos.
Depois o regresso ao quotidiano, onde tudo permanece igual: o trabalho, as alegrias, as dificuldades, e até algumas dores... Só que já não parto do mesmo sítio! Não sei ainda bem de que ponto estou a re-partir, mas sei que se reflete naquilo que em mim se comunica e se relaciona... Talvez quem sabe? De novos lugares de liberdade.

Esta frase faz parte do título de um dos livros do Daniel.
A imagem é de um PowerPoint

Nota importante: "Os poemas de Daniel Faria são, sobretudo, um espaço de diálogo com o mundo, com outros e com o Outro que é Deus. Não estamos, porém, perante uma poesia “religiosa” ou “espiritual”, mas sim face a uma poesia cuja unidade é a unidade do próprio autor enquanto pessoa que pensa e sente, acredita e constrói, aproxima-se e afasta-se, numa lúcida transparência de quem sabe que está a escrever poesia e que tem consciência sóbria do seu valor."

quarta-feira, 11 de julho de 2012



por National Geographic Society


"Só quem faz bem as pequenas coisas é capaz de fazer também as grandes, disse alguém". 
Acredito nisso e acredito que é nos pequenos gestos que revelamos a nossa alma, a nossa alegria de viver e a nossa capacidade de perdoar e de amar.
Hoje ao ouvir o passo a rezar e ao ver esta imagem simples e bonita, tive a certeza de que continuo a sonhar e a acreditar que vale a pena viver e oferecer a vida sem esperar ou desejar o “retorno”. 
Mas quão difícil e exigente isso é e como eu sei!
No entanto sinto-me um pouco como um elo de ligação e uma força para alguns continuarem, mesmo que eu própria o não sinta assim com tanta clareza.
Muito raramente saio sem um sorriso que ajude a sustentar as razões da minha fé e a certeza de que sou muito amada por Deus.
Amanhã começarei um breve tempo de retiro em silêncio, 3 dias de paragem, de estar, de alimentar cada vez mais e com mais verdade aquilo que vou deixando escrito por aqui. 
Não vou poder levar a cadeira de rodas que me ajudaria a dar uma volta pela quinta, mas não faz mal, tudo o que possa ser... é bom.


sábado, 7 de julho de 2012

Ontem ouvi o barulho do mar



Estava cansada e fui deitar-me mais cedo, senti que precisava rezar um pouco, respirar fundo e atenuar a agitação de uma sexta-feira que fora cansativa. No mp3 tenho algumas coisas gravadas, sobretudo músicas que gosto de ouvir e me ajudam a serenar e a examinar o meu dia. 
E foi assim que escutei o barulho suave do mar como se estivesse próximo de mim, como se o pudesse tocar e cheirar. Deixei-me levar por esta, “quase” realidade, de um momento que se tornou cheio de recordações e afetos, cheio de amor e de presença...
Adormeci feliz!


quarta-feira, 4 de julho de 2012

Chamo-Te



Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.

Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só de Teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que não quero ver.

Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o Teu reino antes do tempo venha
E se derrame sobre a Terra
Em Primavera feroz precipitado.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Foto Zilda, campo de tremoços no Alentejo
ao regressarmos do Hospital de Montemor o Novo