domingo, 24 de fevereiro de 2013

O amor na Transfiguração


“Enquanto Ele orava, mudou-se a aparência do seu rosto, e a sua roupa tornou-se branca e resplandecente.” (Lc 9,29)

O relato da Transfiguração dá início à caminhada quaresmal no Evangelho de S. Lucas – uma caminhada de paradoxo e mudança. Pedro acabou de proclamar Jesus como o Messias e ambos estão a realizar as longas viagens em direção a Jerusalém.
Alguns comentadores acreditam que a transfiguração tinha a ver com Jesus obter a bênção final do Seu Pai. Outros acreditam que se tratou de permitir que os discípulos escolhidos tivessem um vislumbre da glória de Deus, e da Ressurreição que estava para vir, para que a compreendessem melhor.
Contudo, vejo o monte como uma linha que divide águas, uma encruzilhada. É um momento fundamental que liga o ministério inicial de Jesus ao seu destino em Jerusalém.
O percurso doloroso escolhido significará que daí a poucos meses o mundo dos discípulos será virado do avesso.
Nada mais será o mesmo. A sua tarefa será transformarem o mundo orientados pelo Espírito, o que irá originar a mudança mais profunda que o mundo alguma vez viu.
O poder de concretizar esta mudança, esta transformação, não se baseia na riqueza ou no privilégio, mas sim no amor.
Será centrado nesse último gesto de amor: dar a própria vida para que os outros possam viver.
O amor que era Jesus perdoou aos pecadores, disse que deveríamos dar a outra face, queria que os ricos abdicassem da sua riqueza, disse que éramos todos iguais, falou de modo familiar às mulheres e deu poder aos pobres. Disse que o que fizéssemos ao menor dos seus irmãos era a Ele que o fazíamos.
Este amor é desconfortável, inaceitável, irrealista, ingénuo. É demasiado dispendioso, quebra com todas as normas criadas pelos homens. Este amor está no centro da missão da Igreja: temos a responsabilidade de trabalhar em prol de um mundo que espera um Reino de Deus com paz e justiça aqui na terra e no qual cada pessoa possa prosperar Por isso, embora a ajuda e a caridade sejam necessárias para ajudar as pessoas que têm fome, também é importante trabalhar para transformar o sistema alimentar falhado que mantém as pessoas a passarem fome.

 Chris Bain
Presidente da CIDSE (Cooperação Internacional para o Desenvolvimento e a Solidariedade) e líder da CAFOD,
agência correspondente à FEC em Inglaterra e no País de Gales, mandatada pelos Bispos
para lutar contra a pobreza e a injustiça em nome da comunidade católica.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

na poesia, a quaresma...


Este é o tempo do silêncio... do silêncio que pode não ser solidão mas encontro, do silêncio que não cala totalmente mas pode ser uma forma mais simples de falar e de reconhecer a força da Palavra que abre caminhos de tranquilidade, de paz e de bem. 
Deixo que Daniel Faria me acompanhe e ajude a pronunciar a palavra-pessoa e a tomar consciência de que importa "SER FILHA", filha amada! E senti-lo por dentro,  a partir de dentro... como a pequena vela que se faz luz a partir de seu interior. 
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Há uma palavra pessoa 
Uma palavra pregada ao silêncio de dizer-se como nunca fora ouvida
E nela dizer-se posso existir.
Só posso viver cabendo nela.
Habito-a
Como Jonas o grande peixe.

Ela pronuncia-me
Traz-me em viagem do nada para o silêncio-exemplifico-o com a luz
de um homem que ressuscita-sustenta-me
Como o jejum alimentado em Nínive

Mas também posso ser um vaso para ela
-um vaso não,outra coisa qualquer que não consigo
comparar às coisas da terra-um lugar tão verdadeiro
Que mesmo a luz em suas praças,pátios e alpendres
Só imprecisamente é capaz de assinalar

E como salva a cinza em Nínive espalhando-se
Eu posso propagá-la
E posso amá-la até me transformar. 

Daniel Faria: Homens Que São Como Lugares Mal Situados 


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