sábado, 31 de agosto de 2013

É noite

De repente tudo ficou escuro, da janela olho o lampião habitual e uma ténue imagem de lua sem cor definida. Uma espécie de bruma triste envolve-me  e não me ajuda a ver o que quer que seja, há uma escuridão húmida, e cheia de ausências...
Volto à infância, ao Hospital da Parede, quero chorar mas não posso, as outras meninas ouvem, as camas estão muito próximas, não devo perturbar o silêncio.

Quero rezar a Oração de Santo Inácio tal como rezo todas noites, não me sai bem a habitual, não é exactamente aquilo que sinto, vivo e experimento agora... Respiro um pouco e faço nova a minha oração: 

Tomai Senhor e recebei, tudo o que sou
tudo o que faço, tudo o que tenho, 
de Ti o recebo e a Ti o entrego nesta noite,
que a Tua vontade seja a minha vontade,
e aquilo que eu desejo verdadeiramente.
Aceita Senhor, tudo o que sou mas dá-me a Tua força 
dá-me a Tu Graça e a Luz da Tua Verdade.
Transforma o meu coração e imprime nele a força do Teu amor, 
Envolve-me nos teus braços
e acolhe-me no Teu coração de Pai e de Amigo
Ilumina a minha noite, agora e sempre.
Amén

Acordei ao som de um música distante, havia sol, sons dos automóveis que passam e de pessoas que conversam perto da janela do meu quarto. Sorrio a um novo dia que começa e soltam-se lágrimas contidas...

Foto: Francisco Esgalhado

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Desafios de Deus




Hoje quero deixar como nota o desafio que me foi lançado de manhã pelo passo a rezar, pedir  a graça de uma existência cristalina que tenha como nascente o próprio Deus.


Foto cedida por Francisco Esgalhado

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Sobre o amor

"Sei que quanto mais amo menos devo conhecer. Não sei explicá-lo. Sei que a luz ao aproximar-se do meio-dia se faz tarde e anoitece." 

Daniel Faria (do livro do Joaquim)

Caminho sem desistir... Ando acima do solo, sem pés... Sento-me numa cadeira também ausente a todos os olhares, uma cadeira leve e sem suportes... Envolve-me uma luminosidade desconhecida, tão branca, tão pura e tão forte ao mesmo tempo... 
Quero fechar os olhos mas eles enfrentam a luz sem medo... Há uma paz "nova" que me habita desde de dentro, oiço uma nova melodia. Que sei eu deste lugar? Nada conheço senão o AMOR que nos envolve, nada conheço senão o teu abraço.
Alice


quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Assunção de Nossa Senhora

Que a  fé de Maria, mãe de Jesus, nos ajude a viver na esperança, na confiança e na simplicidade. A alegria de quem serve e o canto do Magnificat sejam fonte que brota no coração de cada um de nós, neste dia de festa.      
Deixo um poema 


Para Sempre  

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho. 


Carlos Drummond de Andrade 

terça-feira, 13 de agosto de 2013

"Nada me faltará"


Continuo a ir diariamente à fisioterapia, por um lado acredito que, a seu tempo me fará bem, mas por outro sinto um certo um cansaço, ter de sair todos os dias e passar ali cerca de 2 horas...

Hoje tudo me parecia mais custoso, toalhas quentes com tanto calor... por momentos pensei que não ía aguentar e deixei correr uma lágrima silenciosa e breve que secou sem deixar qualquer sinal. 
Fiquei algum tempo a refletir, deitada na marquesa estreita, meio despida, ligada a aparelhos próprios e ouvindo os vizinhos do lado, cada qual com as suas queixas.
Olhei para mim com mais verdade, mais condescendência e muito mais carinho. É que quando me olho assim aceito-me inteiramente, perdoo-me e retomo o caminho partindo do local onde parei: A dúvida que destrói o Amor e embacia o mundo que me rodeia.
Sai reconfortada com as massagens da Sandra.
Hoje quero agradecer a Deus as mãos, as da Sandra que tanto se esforçam para alivio de tantos, sempre confiantes e sem mostrar cansaço. As minhas que têm em cada dedo a marca do coração, as mãos que aprendi a juntar quando rezo.  
Lembrei-me então de que "O Senhor é meu Pastor e nada me faltará. Ele me fará descansar em verdes prados". 


A imagem tirei da net 

sábado, 10 de agosto de 2013

O amor encarnado no quotidiano

Porque esta leitura me ajudou a refletir e a situar na verdade, me trouxe um misto de sentimentos, memórias, vida vivida e certamente ainda por viver. Porque os afetos me são tão caros e há em mim desejo de ir acertando, porque se trata de "novos encontros"... deixo um pequeno extrato do capitulo: A-Deus, SANTÍSSIMO EXPOSTO.


(...) «O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças» (Dt 6,4-5)? Sim, só Deus pode ser amado com todas as forças e com todo o entendimento. Nada nem ninguém, por muito que o quisessem, e mesmo declarando a sinceridade de intenção, poderiam garantir, sempre e em qualquer lugar, o reconhecimento dos afetos mais íntimos, dos desejos mais sinceros de um outro. Em qualquer momento, poderiam deixar de estar à altura das próprias promessas e das expectativas alheias. Por isso, não é justo, sequer, colocar sobre alguém ou alguma coisa esse peso que, simplesmente, nada nem ninguém pode suportar. Só Deus pode ser amado com todo o coração, porque só Ele pode garantir-nos a vida e reconhecer-nos plenamente no mistério que somos. Porque é Ele a origem desse dom que não podemos dar-nos por nós mesmos. E, porque é Ele a plenitude e o reconhecimento do que, com esse dom, pudermos e soubermos realizar. 
Dito isto, seria ainda pouco pensar em Deus como o primeiro amor, ou o maior, entre muitos outros amores. Desse modo, Deus ainda seria um entre tantos, mesmo sendo o maior ou o primeiro entre todos. Seria ainda o absoluto, desligado de nós, aquele que, mesmo que benignamente nos atraísse, continuaria a despertar desconfiança, ressentimento e concorrência. Pelo contrário, amar a Deus com todo o coração, significará amá-lo como o amor de todos os amores (entre pais e filhos, entre amado e amada, entre amigos, entre quem pede e quem dá), o laço de todos os afetos, a compaixão de todos os encontros, a esperança de todos os lugares, a fecundidade de todas as artes. Amá-lo significa reconhecer que sem Ele não podemos viver; que, não o possuindo como coisa nossa, o temos da nossa parte. E, por isso, lhe podemos dizer que permanece para mim um outro e que me é necessário, dado que o que eu sou de mais verdadeiro é o que existe entre nós. É entre-nós entre-tanto-e-tantas- coisas que o nosso amor a Deus se desenha e realiza. Assim, não será amado sem amores e sem afetos, sem encontros, sem lugares e sem artes. Pelo contrário, é nesses amores e afetos, nesses encontros, lugares e artes que Deus é amado. Sim, com todo o coração e com todas as forças. Cada pessoa, cada circunstância, cada elemento do mundo é, de facto, lugar da passagem e do encontro com O-sempre-presente. Neles, o nosso amor A-Deus». 

"A Fé vive de afeto" - P.josé Frazão, sj

nota importante: os negritos são meus...

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Da página em branco...

"Começo a partir da página em branco"

.... escrevo um pouco e deixo esta flor bonita que hoje me ajudou a rezar.
Quando vejo as flores retomo memórias já conseguidas, da beleza que me leva a contemplar Deus que, na natureza se revela... Uma natureza tão pensada e completamente entregue à nossa guarda e à nossa criatividade! 
Também por isso, em cada dia, desejo abrir o coração à esperança e à vida que desabrocha e acontece à minha volta. 

Regressei à fisioterapia e mantenho-me fiel desde segunda feira. A Sandra (fisioterapeuta) continua a ter suavidade e fortaleza nas mãos. Na verdade sinto menos dores... É um bem que recebo e é também uma oportunidade de sorrir à vida.


Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
— Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"

A foto é da minha amiga Sandra

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Santo Inácio de Loiola - O peregrino

«Não sei por onde Deus me leva, mas sei que Ele me conduz para Jesus»... 
(Inácio de Loyola)


Ontem foi dia de festa para os Jesuítas, celebrou-se o dia de Santo Inácio de Loiola, fundador da Companhia de Jesus e o primeiro a fazer a experiência dos Exercícios Espirituais (E.E.) de que tenho falado neste meu blog.
Deixei-me envolver pela festa celebrada na minha Paróquia que está confiada aos Jesuítas. Houve missa solene e almoço partilhado para todos.

Da  biografia de Inácio consta que uma certa  madrugada se retirou para Manresa, e por vários dias, sozinho numa gruta, anotou os sentimentos (ou moções) que experimentava durante a oração que fazia. São essas anotações que se tornaram a base de um pequeno livro chamado Exercícios Espirituais.
Para mim é uma paragem, quase diria descanso. "Aparto-me" da vida comum do dia a dia (telemóveis, computador, televisão...). É um tempo de silêncio, de oração de repensar a vida e sentimentos com mais verdade e autenticidade. É sempre uma ajuda e de uma forma ou de outra, esses dias trazem novidade beleza e força à minha vida.  

Escolhi para deixar nesta postagem a imagem de Inácio peregrino. Para mim ele foi o peregrino do Amor verdadeiro, mas foi peregrino, peregrinando de verdade numa busca constante até conseguir reunir um grupo de companheiros que peregrinassem com ele, vivendo pobremente. Foi assim fundada a companhia de Jesus.
Sinto-me muitas vezes... um pouco em peregrinação, todos estamos afinal! E quando a caminhada se torna custosa, é que percebo o "milagre" de me reconhecer, mesmo assim, muito amada por Deus. Penso que isso faz a diferença entre a forma como se vive a dor física e outras dores... e também como se vivem as alegrias. 
É isto que hoje tenho desejo de partilhar.