segunda-feira, 22 de julho de 2013

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Aqui e agora, O-sempre-presente restitui-se-nos no que as nossas existências as nossas coisas têm de mais simples. Reduzido a pão que nem pão parece, a corpo que não se vê, o mistério divino pode tocar-se, partir-se, comer-se. Numa vulnerabilidade inaudita, expõe-se até à nossa desconsideração e ao nosso não reconhecimento. Aqui, o Santíssimo é Deus é coisa, é Senhor e é servo, é pastor e é cordeiro levado ao matadouro, é dom e é moeda de troca, é grão lançado à terra e é alimento. Inseparavelmente. E, assim mesmo, enquanto se nos dá na pequenez das nossas coisas - no pão das nossas dores no vinho nas nossas alegrias -, deixa -no espaço para as palavras que haveremos de dizer, para os gestos que haveremos de fazer, para as obras que haveremos de criar, para o corpo que haveremos de ser no concreto do nosso quotidiano e das nossas relações. Como indivíduos. Como comunidade de crentes. Aqui, o que já vimos abre-nos a passagem para o que ainda nos falta ver, o que já conhecemos para o que ainda há de vir, o que já encontrámos para o que ainda desejamos receber. 

A pequena custódia que nos expõe o infinito num pedacinho de pão, não pode não desconcertar-nos. Apercebemo-nos da desproporção? Tão elementar. Tão simples. E, porém, em Jesus morto e ressuscitado, o infinito reclama o pedacinho de pão para se nos dar. É o pouco, mas o necessário, para O-realmente-presente-entre-nós. 
Poderá este lugar, tão humano e tão divino, reclamar menos que o teatro das nossas liberdades e dos nossos sentidos? Diante do Santíssimo assim exposto, somos postos diante duma nudez desarmante. Atrai o olhar e torna-o atento, ferindo-o, porém, na sua volúpia insaciável de imagens. A sobriedade dos gestos e a arte das palavras gera um silêncio, quase seco, que não pode não ferir o palavreado ocioso e violento do linguajar quotidiano, a insensatez e a esterilidade de tantas opções. E, assim, se gera o espaço propício e o ritmo necessário para a palavra criadora, para o gesto fecundo. O corpo que se expõe a ser tocado, comido e saboreado - «Isto é o meu corpo/Hoc est corpus meum»  -  é o mesmo que recusa ser coisa que se faz própria: (Não me tocar/Noli me tangere». Máximo de presença corpórea e máximo de distância indizível).

Da contemplação deste lugar sagrado e da força com que nos deixarmos atravessar por tão desarmante dádiva, germinará a atenção generosa que é própria dos vigilantes; a resposta responsável que é própria dos justos; a fecundidade criadora que é própria dos artistas; a inteligência sensível que é própria dos sábios; a simplicidade de uma vida elementar que é própria dos ascetas; a graça de se definir a partir de um outro que é própria dos místicos.
No quotidiano das nossas existências, no concreto dos nossos ritmos e lugares, o gesto pascal de Jesus retoca os modestos resultados do quotidiano com as grandes esperanças que nos mantêm em vida, o vazio com a abundância inesgotável da Graça, a morte com o Espírito da vida. Comovidos, compreendemos que, aqui, cada coisa, cada fragmento do nosso mundo, cada momento das nossas vidas são resgatados ao seu esquecimento e degradação. E que, todos, são acenos a-Deus, até que Deus chegue a ser tudo em todos.

Diante deste fogo que arde no pão e no vinho, tiramos o calçado. Aqui, aprendemos a ajoelhar-nos. Não para nos rebaixarmos, mas, antes, para nos elevarmos à estatura daquele que se fez O-mais-baixo e, assim, chegarmos mais à altura de nós mesmos e do mistério que a vida é. Será um gesto de amor, profundamente reconhecido, porque o que existe de mais verdadeiro em mim é o que existe entre nós. Será um gesto largo, porque o que existe entre nós é cada encontro humano e cada momento concreto da história. Mesmo que hoje nos pareçam lugares onde Deus não tem lugar, continuam a ser os lugares onde haveremos de reconhecer e de amar O-sempre-presente-entre-nós. Neles, o Santíssimo que se nos dá, expõe-se à nossa disposição de o amarmos com todo o coração. Como nosso Senhor». 

padre José Frazão, sj - do livro "a Fé vive de afeto"
variações sobre um tema vital 
Pintura - Arcabás

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Foi um tempo branco

Volto a Daniel Faria sempre que preciso de me reencontrar na fonte de todas as fontes. Mergulhei neste tempo branco, onde as estrelas brilham sempre. "Era branco, um som que nunca ouvi"
Era branco e eu não sabia, desconcentrada e sem certezas. Era o branco de um coração vazio.
Quero sair e por-me a caminho, sinto o toque do afeto, uma presença nunca ausente e "vi que era ele que partia o pão", mas eu não sabia...


Foi um tempo branco, repetidamente lavado nas próprias mãos
Desviando a transparência do rosto para a noite
Um tempo branco muito diferente da verdade
Muito diferente das estrelas que se apagam

Foi um tempo muito branco
Mais doloroso do que os olhos sempre abertos no escuro
Inimaginável quando pus de fora a cabeça , as mãos
— tendo deposto o que trazia nelas —
O corpo todo
E saí como um paralítico depois do milagre
Na forma de quem grita por socorro

Foi um tempo branco porque era mudo
E não havia nenhuma palavra que pudesse apagá-lo
Um tempo tão manso como um lobo que não morde
Um tempo tão branco
Tão raso

Saí como um coxo que caminha sobre o tempo tão liso
Tão branco
Que pensei que era um muro aquele tempo estar ali
E bati contra ele como uma badalada que demora 

E era branco, um som que nunca ouvi

Daniel Faria 
Poesia - Assírio &  alvim




domingo, 14 de julho de 2013

“Faz isto e viverás”


“Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais, envelhecidos:
se alguém chama por nós, não respondemos,
se alguém nos pede amor, não estremecemos.
Como frutos de sombra, sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos”!

Eugénio de Andrade – “As mãos e os frutos”

quinta-feira, 11 de julho de 2013

O pardalito e eu


Observo o pardalito pensativo e hesitante, olha o horizonte e possivelmente sairá em breve para continuar a sua viagem pelo mundo. Faço-lhe um convite: Fica comigo nesta manhã!

Hoje sossego e fico à espera do momento de poder caminhar... É que ao levantar-me de noite caí em cima do "aparelho" que se amolgou um pouco. O Tó, sempre pronto, foi há pouco tentar compô-lo, nada de mais...
E assim, por aqui  fico a sonhar com um horizonte tão perto e tão longe, tão alto e tão baixo, que me faz lembrar um quadrado.
É curioso como as circunstâncias da minha vida, às vezes, se encaixam de forma tão subtil e cheia de surpresas, como se Deus me fosse ajudando a fazer o quadrado de uma existência que saltita de lado para lado, mas se enche dia a dia de plenitude e gratidão. 
Alice

quarta-feira, 10 de julho de 2013

O menino

 " O menino saltava sobre a ponte
Amava as barcas as gaivotas
ouvia as varinas e sabia
Os corações não eram de granito
Os lábios não eram de granito" 

Daniel Faria, POESIA, 2012

 

domingo, 7 de julho de 2013

Ide! Não leveis bolsa, nem alforge...

 *Depois, o Senhor designou outros setenta e dois discípulos e enviou-os dois a dois, à sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir.  *Disse-lhes: «A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, portanto, ao dono da messe que mande trabalhadores para a sua messe.  Ide! Envio-vos como cordeiros para o meio de lobos.  *Não leveis bolsa, nem alforge, nem sandálias; e não vos detenhais a saudar ninguém pelo caminho.  *Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: 'A paz esteja nesta casa!' 
Lc. 10 (1-6)
Não ter nada.
Não levar nada
Não poder nada.
Não pedir nada.
e, sobretudo,
não matar nada;
não calar nada.
Somente o Evangelho como uma faca afiada.
E o pranto e o sorriso no olhar.
E a mão estendida e apertada.
E a vida, a cavalo, dada.
E este sol e estes rios e esta terra comprada,
para testemunhas da Revolução já iniciada.
E “mais nada”!

Pedro Casaldáliga

sexta-feira, 5 de julho de 2013

A cor do mar

Olhando a enorme grandeza em que o céu se une à "terra/mar", sou como uma gaivota perdida que deseja conquistar o mundo... Mergulho num desejo de me misturar e envolver neste azul, mergulho livremente, descalça e sem "ataduras", para emergir de novo ao som do cantar da sereia. 


Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes…
e calma

Sophia de Mello Breyner Andresen



Foto minha - Praia do Pedrogão
Nota - Esta praia tem acessibilidades e um carro próprio
para que eu, e todos e as pessoas com deficiência, possam ir ao mar

quarta-feira, 3 de julho de 2013

É Jesus a entrar

«Meu Senhor e meu Deus!»
«Tu acreditastes, Tomé, porque Me vistes; bem-aventurados os

que acreditaram sem terem visto» Jo 20, 29




Sonho a  surpresa de momentos  
em que a porta se abre à "Luz". 
Sonho portas sem ferrolho 
portas abraçadas
vidas que se encontram
na suavidade de um novo dia
que acontece como uma bênção.

Alice

Tomé - Caravaggio

porta - pesquisa google

segunda-feira, 1 de julho de 2013


“ Mas um dia uma tarde…houve um fulgor,
Um olhar que brilhou... e mansamente...
Aí dize ó meu encanto, meu amor:

Porque foi somente nessa tarde
Nos olhámos assim tão docemente
Num grande olhar d’ amor e de saudade?! “
          
 Florbela Espanca

Tudo faz sentido... e faz sentido no amor que me trouxe à vida, desde sempre, antes mesmo de ser concebida, por isso cada amanhecer acontece pelo amor incondicional de Deus.