sábado, 16 de junho de 2012

Entrega sempre a tua beleza

Venho poucas vezes, falta o tempo, falta entrega e generosidade, falta beleza, faltam palavras. Não sei se amo ou se perdi a capacidade de amar, se vejo a beleza  das coisas que me rodeiam ou fecho os olhos diante delas,  mas sei que vivo e Deus vive em mim. Sinto desejo de voltar a ser alegre e a deixar-me  queimar pelo sol, de dizer de mim o que em mim permanece de verdade, mas calo-me, porque esqueci o que sabia de mim. 

As minhas pernas estão mais fracas em cada dia, com frequência caio sem me magoar demasiado, porque ando devagar. Só posso, só devo andar devagar. Os músculos descontrolam-se ao sabor de um simples toque ainda que seja de ternura. De tudo o que fui, ficou a mulher frágil e desajeitada que sou... Da mulher que apesar de tudo, se entrega à vida, sem cálculos, sem muitas palavras, tal como diz o poema de Rilke. 
Tenho um amigo, cujas coisas gosto de reler e de vez em quando, que diz: "A vida de Jesus, a força dos seus gestos, atesta que Deus é dom incondicional de si para a vida de todos... é esta a verdade que salva". 
Hoje fico diante desta verdade que me salva, sem mais... e porque sinto que é preciso perder tudo para ganhar de novo. 


 


Entrega sempre a tua beleza
sem cálculo, sem palavras.
Calas-te. E ela diz por ti: eu sou.
E com mil sentidos chega,
chega finalmente a cada um.

Rainer Maria Rilke, 
in “O Livro das Imagens"


Foto de José Romano
A lagoa dos cântaros - Serra da Estrela

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