terça-feira, 17 de março de 2015

A força e as palavras

Porque cada metade de mim, deseja sempre estar inteira... 
Porque nasci inteiramente abençoada e cada momento simples me oferece um sorriso de esperança...
Porque dia-a-dia preciso de recordar que tudo é dom...
Porque oiço e sinto a música de cada silêncio... E quero encher de paz cada momento vazio... 
Curvo-me diante da Única Fonte da qual bebo a água fresca que fortalece a minha vida.


"Que a força do medo que eu tenho
não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo o que acredito
não me tape os ouvidos e a boca,
porque metade de mim é o que eu grito
mas a outra metade é silêncio.
Que a música que eu oiço ao longe
seja linda ainda que triste.
Que a mulher que eu amo
seja para sempre amada
mesmo que distante,
porque metade de mim é partida
mas a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece
e nem repetidas com fervor.
Apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimentos,
porque metade de mim é o que eu oiço
mas a outra metade é o que calo.
Que esta minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz
que eu mereço e que esta tensão
que me corrói por dentro
seja um dia recompensado,
porque metade de mim é o que eu penso
mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste
e que o convívio comigo mesmo
se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflicta no meu rosto
um doce sorriso que me lembro de ter dado na infância,
porque metade de mim é a lembrança do que eu fui
e a outra metade, eu não sei.
Que não seja preciso mais
do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito
e que o Teu silêncio
me fale cada vez mais,
porque metade de mim é abrigo
mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta
mesmo que ela não saiba
e que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade
para fazê-la florescer,
porque metade de mim é plateia
e a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada,
porque metade de mim é Amor
e a outra metade também"

"Metade", de Oswaldo Montenegro