sexta-feira, 19 de julho de 2013

Foi um tempo branco

Volto a Daniel Faria sempre que preciso de me reencontrar na fonte de todas as fontes. Mergulhei neste tempo branco, onde as estrelas brilham sempre. "Era branco, um som que nunca ouvi"
Era branco e eu não sabia, desconcentrada e sem certezas. Era o branco de um coração vazio.
Quero sair e por-me a caminho, sinto o toque do afeto, uma presença nunca ausente e "vi que era ele que partia o pão", mas eu não sabia...


Foi um tempo branco, repetidamente lavado nas próprias mãos
Desviando a transparência do rosto para a noite
Um tempo branco muito diferente da verdade
Muito diferente das estrelas que se apagam

Foi um tempo muito branco
Mais doloroso do que os olhos sempre abertos no escuro
Inimaginável quando pus de fora a cabeça , as mãos
— tendo deposto o que trazia nelas —
O corpo todo
E saí como um paralítico depois do milagre
Na forma de quem grita por socorro

Foi um tempo branco porque era mudo
E não havia nenhuma palavra que pudesse apagá-lo
Um tempo tão manso como um lobo que não morde
Um tempo tão branco
Tão raso

Saí como um coxo que caminha sobre o tempo tão liso
Tão branco
Que pensei que era um muro aquele tempo estar ali
E bati contra ele como uma badalada que demora 

E era branco, um som que nunca ouvi

Daniel Faria 
Poesia - Assírio &  alvim




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