quinta-feira, 7 de julho de 2011

Eis que o Inverno já passou


Acordo envolvida por uma sensação de tranquilidade e de paz, o sol que já desponta no horizonte fala-me do novo dia e promete-me felicidade e luz... mas não tem a última palavra porque eu sei que isso irá depender do meu olhar.

E o primeiro olhar vai para a minha mãe que a meu lado dormita na sua cama de grades, opção indispensável para que ela não caia. Durante a noite baixamos "esse pequeno muro" e um de nós fica mais junto dela procurando fazer-lhe sentir que não está só. Almofadas juntas, cabeças quase juntas e mãos que se vão tocando em gestos de afago e de presença…

A claridade entra no quarto por pequenas frestas mas não a perturba nem a acorda, esquece-se com frequência se é dia ou noite…

E a minha mãe é linda, mesmo adormecida, continua cheia de encanto e vem despertar em mim sentimentos de gratidão e recordações que apontam para um passado feliz de vestidos domingueiros embaloados e floridos, com frango assado ou bifes com batatas fritas ao almoço, pudim flan e laranjada…
Fico algum tempo em silêncio para que o silêncio reze em mim a oração da manhã.
Alice

Deixo um poema de que gosto e foi para mim inspirador.

Eis que o Inverno já passou
Deixa que a respiração profunda
do teu Ser aconteça. Só isso. Não
interrogues, nem busques. Deixa
que seja Deus a procurar-te. Não
caminhes. Ele virá ao teu encontro.
Não procures contemplar. Permite,
antes, que Deus te contemple. Não
rezes. Deixa que, em silêncio, Ele
reze o que tu és.

in Um Deus que Dança, José Tolentino Mendonça


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